Uma sociedade civil desorganizada

Tenho para mim que o problema do Brasil somos nós os brasileiros, que não nos mobilizamos por nós mesmos

Por ROBERTO FREIRE 07/11/2017 - 16:22 hs

Nós da sociedade civil não nos entendemos enquanto tal; somos partes que não formamos um todo. Somos mais uma multidão de gente do que uma nação; somos uma população grande, mas não formamos um povo para além da esfera jurídica institucional.

Cada um de nós tem um elo primeiro com sua família, depois com sua religião, depois com seu partido político, seu time de futebol, sua corporação de ofício, com suas causas pessoais (não necessariamente nessa ordem), e acreditamos que temos que lutar contra os demais para garantirmos nossa sobrevivência ou melhorá-la.

Aqueles poucos setores organizados da sociedade civil, sindicatos, movimentos sociais, corporações de ofícios, etc. buscam tão somente seus interesses privados, e agem contra a imensa maioria da sociedade civil desorganizada que não se protege desses setores com força política.

O fato é que não temos uma causa comum, não nos mobilizamos contra as safadezas do Congresso ou a desonestidade dos governantes: esperamos que as instituições o façam.

Não nos mobilizamos para termos um sistema educacional e de saúde pelo menos razoável, nem contra a extorsão dos nossos governantes com os impostos.

A grande contribuição política e ética que a sociedade civil tem realizado, é se omitir, ser apática, e depois, individualmente, cada um de nós se lamentará e culpará governantes e políticos pelos resultados medíocres do país.

Tenho para mim que o problema do Brasil somos nós os brasileiros, que não nos mobilizamos por nós mesmos, que não sabemos defender nossos direitos, nem conseguimos nos organizar por qualquer causa nobre como a educação.

E ainda que alguns brasileiros possam se destacar, isso ocorre apesar dos governantes e políticos, ou das instituições ou das leis, pois que não há estímulos para vencermos na vida enquanto um povo, ainda que possa haver algum estímulo para vencer por si, mas ocorre por falta de possibilidade de se obter alguma coisa o Brasil a não ser por méritos próprios.

Uma sociedade civil que não consegue punir os maus e premiar os bons, que não consegue estabelecer um bem comum, não consegue colocar seus membros para moverem suas bundas da cadeira para além da busca do sucesso pessoal, que não consegue estabelecer um processo de confiança mútua e vive na desconfiança mútua de seus membros, jamais conseguirá deixar de ser violenta, estúpida, injusta e desonesta.

E ainda que possa obter algum desenvolvimento econômico, lhe faltará o principal para sair do subdesenvolvimento social e político: o engajamento de cada um de nós para a construção de algo melhor para todos e não apenas para si.

A união faria a força de todos e a desunião promove a fraqueza de cada um de nós.

ROBERTO DE BARROS FREIRE é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). 

rdefreire@uol.com.br