Radicalismos da política

Por ANTONIO S. SILVA 13/11/2017 - 16:00 hs

Aparentemente, entramos em uma nova fase da globalização, dentre várias etapas que consolidam a formação da aldeia global, resgatando as ideias do pensador canadense Marshall McLuhan, para quem a sociedade vive em um planeta que se encolheu, mediante o surgimento das novas tecnologias da informação. A comunicação online, realmente modifica a estrutura da arquitetura social, como parece, sem ainda promover transformação efetiva nas relações humanas, ainda que culturas se misturem em todas as territorialidades, mantendo a tradicional ordem do sistema de poder político.

Nos anos recentes, os países que defenderam a globalização de mercadorias, com uma volumosa produção industrial, decidiram-se que a melhor maneira de evitar a perda do ordenamento econômico é levantar barreira para estabelecer um radical nacionalismo conservador, como ocorre com os Estados Unidos de Donald Trump, o principal jogador das economias liberais, além de países da Europa, que refaz sua política global, com mais radicalismo nacionalista, de maneira explícita.

Como um império não se mantém no poder eternamente, a perda de espaço leva a sociedade, com seus líderes políticos, a tomar decisões na manutenção da ordem que estabeleça status quo. Não se trata, como analisamos uma questão meramente de governo ou política conservadores, mas uma definição tomada pela sociedade em rearranjo e em movimentos políticos, estrategicamente, conforme conveniências.

As eleições nos grandes centros econômicos refletem o apoio aos novos mandatários que fecham a economia e os limites do Estado para preservar empregos, riquezas, valores e qualidade de vida para os nacionalistas, mesmo que em detrimento de outras nações na periferia econômica ainda que na mesma aldeia global. No entanto, o aperto à restrição na política mundial faz emergir com radicalidade a imigração, como está demonstrado com repetição nas mídias globais e locais.

O mercado continua fluído sem fronteiras, mas as pessoas, mais ainda, passam a ter limites territoriais, numa definição de localidade moderna, que cada vez mais se torna restrita com aumento acentuado de múltiplas carências, fazendo emergir uma guerra silenciosa na periferia desta aldeia globalizada.

Se em algum momento participar efetivamente do modelo global de mercado fosse uma estratégia dos países subdesenvolvidos, na dependência de mercados internacionalizados, isso passou a ser necessário e indispensável, porém, numa disputa ainda mais acirrada, com novas tomadas de decisões restritivas dos países centrais na defesa de suas economia e poder mundial. O discurso sinaliza a preservação de emprego e capacidade de produção interna para exportação, com a radicalidade de construções de muros físicos e imaginários protegidos para impedir a divisão do capital com estrangeiros, internamente, porém advindas de negócios sem fronteiras

Nesta perspectiva da globalização, dos últimos movimentos políticos, países como a China, na segunda colocação na política econômica global e em ascensão, nunca foi tão favorável a abertura de mercados, com disputas econômicas nos preços das mercadorias, sem distinção de qualidade dos produtos tecnológicos dos centros produtores, desfazendo o discurso de diferenciação entre ricos, subdesenvolvidos e pobres. Não há mais esses limites na produção nesta aldeia da automação, com tecnologias que também se tornam em mercadoria importante, por vezes linguagem para sobreposição cultural. No movimento da reorganização da globalização, neste instante, estão os seus idealizadores da década de 90, com protagonismo da Inglaterra, de Margareth Thatcher, o berço do neoliberalismo para precarização radical do trabalho em favor do capital.

No Brasil, que também entra em uma nova fase política, com o governo de Michel Temer, está neste imbróglio, como se mostra pertinente avaliar, na referida aldeia global, para abertura do mercado nacional, na venda de empresas públicas, com destruição de barreiras comerciais com centros econômicos, elevando a força liberal, com transações envolvendo prioritariamente as chamadas commodities. Na esteira do agronegócio, cuja riqueza se mostra volumosa e importante no país, mas em detrimento da alavancagem da indústria de transformação e tecnologia, cujo movimento tendencialmente agrada os centros econômicos, com influência na decisão de grupos políticos latino-americanos liberais exportadores de matéria prima.

Aos países como o Brasil, neste cabo de guerra, resta o entendimento da necessária integração regional para o próprio desenvolvimento, exigindo a valorização das trocas econômicas na região, com suas reconhecidas riquezas naturais, potencialidades industriais e quantitativo populacional. No entanto, a mesma política que emergiu na divisão dos países na América Latina, há séculos, sobretudo nas nações de língua espanhola, comandada pelos ingleses e norte-americanos, continua imperando, negociações no subterrâneo, longe dos holofotes midiáticos, no sentido de forçar o controle do seu entorno dos centros financeiros e econômicos.

Embora, exista concentração de riquezas, emergiram novos adversários nas disputas globais, no último século, os quais se tornaram fortes, como China, Rússia e Índia tornando os sistemas mais complexos e mais competitivos e, por isso, intrigada a batalha pelo poder. Em essência, a preservação do poder global das nações centrais passa, sobretudo, pelo crivo da política do desarranjo regionais, com ampliação de conflitos, na escolha de países amigos e inimigos, para eternas disputas cíclicas.

Na América Latina está cada vez mais visível e eternizada a guerra de discursos entre os socialistas (Venezuela, Equador, Bolívia) versus os globalizantes (Brasil, Chile, Colômbia e agora, de fato, a Argentina, de Mauricio Macri). O Mercosul, que nasceu sem consenso está na realidade acéfalo, depois das várias disputas, principalmente, durante os dois últimos anos, envolvendo venezuelanos e uruguaios contra Brasil, Argentina e Paraguai. Há resistência pelos primeiros e mais promessas da aproximação do mercado latino-americano com países da Europa e EUA, sem máscaras, pelos segundos. 

No final, como resultado dos conflitos, muitos deles ordenados como estratégia política de manutenção de poder, está a ordenação sistêmica, com mercados historicamente globalizados, nem sempre observando justiça social e regional. Um ponto a considerar nesta discussão é que o planeta, com o passar do tempo, se tornou apenas do tamanho de uma vila, porém com muros tão altos entre nações revelando o alargamento da periferia, em um sistema erguido com suas divisões previamente configuradas. A efetivação do nacionalismo radical que emerge nos países de economia hegemônica, paradoxalmente, não passa de jogada política para estabelecer mais limites em um mundo sem fronteiras para valores financeiros e produtos com exploração do trabalho ainda degradante, apesar da tecnologia.

Nesta etapa da globalização falta mais política para integração regional na América Latina, bem como diálogo para consenso internacional, com menos desigualdade social na aldeia global.

Antonio Sebastião da Silva é doutor pela Universidade de Brasília (UnB), mestre pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professor pela Universidade de Mato Grosso (UFMT). Email: antoniosilvva@gmail.com