Suicídio: o machismo que também mata homens

Por Juliana Santana 11/10/2017 - 16:33 hs

Foto: Reprodução

O Brasil é o oitavo país com maior número de suicídios, segundo o relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde. Sendo que 78,1% deles foram cometidos por homens, conforme dados divulgados no Mapa da Violência feito pela Flacso Brasil (Faculdade Latino americana de Ciências Sociais), em 2012. E isto não é uma realidade exclusiva do Brasil, o suicídio é a principal causa de morte entre os homens na Inglaterra e País de Gales, nas idades entre 20 e 34 anos.

Segundo a pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Araguaia, Eliane Suchara, os homens são os que de fato mais cometem o suicídio e as mulheres as que mais tentam se suicidar, mas que não chegam a concluir o ato. Isso porque as mulheres tem mais facilidade de expressar seus sentimentos, de desabafar, conversar e procurar ajuda quando estão em estado de fragilidade. Enquanto o homem tende a guardar pra si, por conta da cultura machista em que vivemos, sua frustações. O homem deve ser sempre uma figura de força e inabalável.

Em sua pesquisa, realizada no município de Barra do Garças – MT, a pesquisadora registrou que de 164 tentativas de suicídio por medicamentos, 71,1% foram realizadas por pessoas do sexo feminino. Os homens optam por métodos mais brutais e fatais. Geralmente, eles são mais violentos para se matar, utilizando armas de fogo, armas brancas, enforcamento e agrotóxicos, reforçando os estereótipos que lhes são atribuídos.

São diante de dados como esses, que percebemos o quanto o patriarcado é prejudicial tanto para os homens, como para as mulheres, pois ele limita ambos os gêneros. Enquanto para mulheres são atribuídos sentidos de fragilidade, de papéis secundários e submissão, para o homem é atribuído o papel de força e liderança, que não pode demonstrar sensibilidade ou fraqueza, pois isto desmistifica sua masculinidade. Porém, nós sabemos que a realidade não é assim.

Da mesma forma que mulheres não são sempre frágeis, pelo contrário, em várias situações demonstram força, liderança e outras características que o patriarcado atribui ao sexo masculino. O homem também não é sempre forte e inabalável. Todos somos humanos, todos nós sentimos, sofremos e temos que saber exteriorizar esses sentimentos. A velha frase “homem não chora” é uma grande mentira, homem chora, sim! Se permitir chorar e exteriorizar sentimentos é saudável.

É preciso desconstruir essa figura de masculinidade forte e indestrutível que tanto é reforçada pela mídia e pela sociedade. Precisamos de mais campanhas de prevenção ao suicídio. Esse tema não pode ser tabu, deve ser tratado como saúde pública. Para Karen Scavacini, psicoterapeuta e idealizadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, é preciso ensinar desde a infância que os meninos não devem aguentar tudo “Deveria haver educação no sentido de mostrar ao homem que ele pode buscar ajuda e que isso não significa ser covarde ou fraco", diz a psicoterapeuta.

Mas ao mesmo tempo é preciso conscientizar toda a população para que saibam lidar com as pessoas em estado de depressão, para que saibam ouvir ao invés de julgar, para que entendam que saúde mental é tão importante quanto a saúde física, que depressão não é “frescura” muito menos escolha e que frases como “não seja tão dramático” “pare de frescura” “seja homem” são extremamente perigosas para serem ditas.

Juliana Santana é jornalista