Barra-garcenses são precursores do jiu-jitsu para-esportivo no mundo

O jiu-jitsu adaptado para pessoas com deficiência está surgindo em Barra do Garças. O município tornou-se referência mundial do ensino da modalidade para-esportiva, com o suporte dos Emirados Árabes

Por Kayc Alves/Da Redação 06/12/2017 - 09:37 hs

Foto: Reprodução

A recente vitória do paratleta Marcio Montiel, no primeiro campeonato de parajiu-jitsu do Brasil, no Rio de Janeiro, início de novembro, despertou a curiosidade para a modalidade para-esportiva da luta marcial em Barra do Garças. Desconhecido aos próprios habitantes da cidade do extremo leste mato-grossense, o fato de que o parajiu-jitsu está surgindo mundialmente a partir do município tampouco é conhecido em escala nacional ou global. A iniciativa é jovem e, entre tantas modalidades esportivas das artes marciais, só agora a versão adaptada do esporte começa a despontar da invisibilidade.

Até pouco tempo, no jiu-jitsu, pessoas com deficiência física enfrentavam atletas com plena mobilidade de seu corpo, em lutas demonstrativas. Foi assim que Elcirley Luz Silva, 43 anos, se apresentou no tatame pela primeira vez como paratleta, no final de 2014, em São Paulo. Barra-garcense, o atleta perdeu a perna em um acidente de trânsito, no início do mesmo ano. Ele já competia pelo esporte havia quase 20 anos, e teve que adaptar a luta à sua nova realidade. Elcirley chegou na maior capital do país, ao lado do amigo, o professor de jiu-jitsu Márcio Edson, paratleta de Canarana, ouro em Tóquio e em Los Angeles.

No início de 2015, os dois foram convidados a visitar Abu Dhabi, onde lutaram contra atletas em condições físicas “normais”. O jiu-jitsu é popular no conjunto de monarquias chamada de Emirados Árabes Unidos (UAE), que investe fortunas na prática do esporte.

A apresentação dos atletas, até então para-desportivos, despertou o interesse das autoridades árabes, que embora financiem o esporte em todo os Emirados, ainda não contavam com iniciativas do jiu-jitsu adaptado para pessoas com alguma deficiência. Essa primeira visita a Abu Dhabi marca o surgimento do parajiu-jitsu como modalidade esportiva, que difere da prática já existente, em vários cantos no mundo, por desporto.

“Já existiam pessoas que lutavam, participavam de competições, mas eram competições desiguais. Na verdade, essas pessoas iam ali para competir e passar uma mensagem”, explica Elcirley. Em Abu Dhabi, ao questionarem a ausência da inclusão de pessoas com deficiências no esporte, ele e Márcio foram desafiados pelo sheik Mohamed Biz Zayed Al Nahyan a estar à frente da guinada para-esportiva do jiu-jitsu no mundo.

A mensagem de união entre os praticantes do jiu-jitsu adaptado precisava chegar a todos os continentes. Para que a modalidade para-esportiva se estabelecesse, existia a necessidade de conectar os núcleos, até então isolados, de jiu-jitsu adaptado espalhados pelo mundo. Muitas vezes, em alguns países, a iniciativa se resumia a poucos praticantes, que se sentiam únicos na atuação dentro do tatame.

“Começamos os trabalhos buscando paratletas nas redes sociais e começamos a encontrar”, conta Elcirley, hoje medalhista de ouro em Tóquio, Los Angeles e Rio de Janeiro. Desde então, o faixa preta tem o apoio da Federação de Jiu-Jitsu dos Emirados Árabes Unidos (UAEJJF) para viajar o mundo, divulgando a modalidade e agrupando os paratletas. Pelo celular, hoje, ele tem contato com praticantes do jiu-jitsu adaptado no mundo todo.

Elcirley conhece pessoalmente o sheik Mohamed Biz Zayed Al Nahyan, em UAE

Foi em 2017 que a UAEJJF estabeleceu oficialmente o suporte a difusão do parajiu-jitsu ao mundo. Em menos de três anos, a nova modalidade já mobilizou duas dezenas de países, em cinco continentes.

“Estamos em quase todos os continentes a buscar atletas com essas deficiências e, assim, aumentar o número de praticantes de paratletas pelo mundo. Hoje eu já posso afirmar que nós temos mais de 25 países envolvidos”, resume.

A mobilidade pelo mundo não impediu que o atleta centrasse a prática do parajiu-jitsu em Barra do Garças. O desenvolvimento de atividades locais e a instalação da academia Gracie Barra, no início de 2017, tornou o município referência mundial para o jiu-jitsu adaptado a pessoas com deficiência.

Na academia, o instrutor Elcirley faz um trabalho social e especializado no parajiu-jitsu. São quase 100 alunos, entre pessoas com deficiência e em plenas condições físicas, de todas as faixas de idade. Com instrutores de alta capacitação, a academia usa os métodos de ensino tradicional Gracie Barra (que surgiu em 1986 na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro).

A iniciativa de inclusão de pessoas com deficiência na arte marcial tem servido de modelo para o mundo, conta Elcirley. Com a estrutura construída a partir do apoio da federação de jiu-jitsu dos Emirados Árabes, Barra do Garças torna-se ponto estratégico para a modalidade. O trabalho desenvolvido no município está impulsionando o surgimento da Federação Brasileira de Jiu-Jitsu Para-Esportivo, a qual terá como presidente o atleta Elcirley.

“Podemos dizer que, com o apoio dos Emirados Árabes, surge a partir daqui um movimento robusto para a prática do jiu-jitsu adaptado para pessoas com deficiência física, auditiva, visual, entre outras. Não podemos esquecer de mencionar os autistas e os portadores da Síndrome de Down”, destaca o instrutor.

Geração de paratletas

Talvez uma das modalidades para-esportivas mais inclusivas que exista no mundo, o jiu-jitsu adaptada envolve hoje um catálogo de 18 classes, que são diferentes deficiências. A lesão medular, que afeta a mobilidade do paratleta Marcio Montiel (foto da capa), é uma delas. Ele não tem grande parte dos movimentos das pernas, o que condiciona sua locomoção à cadeira de rodas. O barra-garcense é o primeiro cadeirante mato-grossense a competir em um campeonato a nível mundial de parajiu-jitsu.

Marcio, 30 anos, foi premiado com ouro no Mundial Grand Slam, ocorrido no Rio de Janeiro, no início de novembro. O torneiro de jiu-jitsu, que acontece em cinco continentes, implementou, pela primeira vez no Brasil, a modalidade para-esportiva na competição. Foi a primeira vez que Montiel competiu no tatame com outros cadeirantes.

“Tem mais de dois meses que eu estou me preparando para esse campeonato e graças a Deus foi tranquilo. A pressão maior foi psicológica. O primeiro campeonato, lutar com cadeirantes. A pressão psicológica foi maior do que a física”, conta Márcio, faixa branca, que treina na Gracie Barra, em Barra do Garças.

Em alguns meses haverá mais dois torneiros do mesmo circuito. Se classificado, Marcio e outros paratletas vão competir no Grand Slam de Abu Dhabi. Eles contam com o apoio da população de Barra do Garças para custear a viagem, através de campanhas de arrecadação.

Marcio é bolsista na academia, treina jiu-jitsu, com seu professor Gabriel Guerreiro e faz musculação de segunda a sexta-feira. Há menos de um ano atrás o paratleta ocupava seu dia com a fisioterapia, necessária para o melhoramento da sua condição, após o acidente que sofreu em 2015.

Pouco mais de um ano se recuperando da descarga elétrica que o deixou paraplégico, Marcio foi convidado, no início de 2017, para uma aula experimental de jiu-jitsu. O professor Elcirley disse a ele que o esporte o ajudaria no desenvolvimento da mobilidade e nas suas condições físicas. Desde então, Montiel pratica a modalidade.

“O Elcirley me adicionou no grupo de paratletas, que ele coordena, no mundo todo. Eu fui conhecendo outros paratletas e ficando por dentro do jiu-jitsu para-esportivo”, conta.

Dentro de poucos meses de jiu-jitsu, Marcio participou, de forma demonstrativa, do campeonato Centro-Oeste, em Goiânia, e do mato-grossense, em Campo Verde. Hoje, ele coroa sua breve carreira com uma medalha do campeonato de nível mundial, no Rio de Janeiro.

O rápido desenvolvimento do paratleta é destacado por seu treinador, o faixa-azul Gabriel Guerreiro. “Foi fenomenal a evolução do Marcio Montiel durante esses dez meses de treino. Ele é um rapaz muito dedicado.”

Márcio é o primeiro aluno sob o treinamento de Gabriel. Com quatro anos de esporte, o estudante de educação física afirma que no início foi um desafio. Mas Montiel teve uma boa resposta aos movimentos adaptados, o que o permitiu lutar contra atletas em plenas condições físicas.

“A gente foi vendo que, conforme o tempo, ele foi ganhando mais mobilidade. Hoje ele consegue fazer a saída de quadril, movimento que adaptamos para ele. Também se movimenta muito bem por cima”, explica Gabriel.

Entre os paratletas de Barra do Garças e região, Márcio não está sozinho, quanto a conquistas mundiais. Além dos mencionados medalhistas Elcirley e Mário, outro atleta do jiu-jitsu adaptado, que foi ao Japão só para competir, é o Jackson Cardoso Leandro. Com a falta de dorsoflexão no pé direito, ele conquistou ouro na capital Tóquio e foi prata, no Grand Slam do Rio.

Na ponta da direita, Jackson e Mário. Elcirley é o primeiro da esquerda.

Além das conquistas e da ocupação com o esporte, o jiu-jitsu tem ajudado os paratletas na qualidade de saúde. Para aqueles com mobilidade reduzida, a modalidade é um estímulo a mais para as condições físicas.

“Tanto a fisioterapia, quanto o jiu-jitsu, têm me ajudado bastante na questão da mobilidade, na questão da força dos meus membros, tanto superiores quanto inferiores”, destaca Montiel.

Segundo Elcirley, a importância do projeto que desponta de Barra do Garças para o mundo está na possibilidade de investimento em Saúde Pública. Após viajar pelos continentes, semeando e cultivando o parajiu-jitsu, o professor começa a colher os frutos. Hoje, ele já sonha com um centro de reabilitação vinculado ao esporte. “Rompeu a barreira de ser apenas um esporte ou um para-desporto. Volta-se agora para a questão de Saúde Pública.”

Hoje, a Gracie Barra, em Barra do Garças já conta com 10 paratletas, entre crianças e adultos. No mundo, com o apoio dos Emirados e a disposição de Elcirley e Mario, são centenas. “Nossa primeira missão foi encontrar paratletas pelo mundo e conectá-los. Agora é difundir entre as pessoas como oferta de saúde, readaptação e qualidade de vida.”