AGRONEGÓCIO Terça-feira, 20 de Junho de 2023, 08:31 - A | A

20 de Junho de 2023, 08h:31 - A | A

AGRONEGÓCIO / EMPODERAMENTO FEMINIMO

A história de uma vida dedicada ao trabalho rural

Luciana Garbeline mora há 14 anos em Bom Jardim de Goiás, no Assentamento Sonho de Rose

Bruna Priscila*



Luciana Garbeline, 38 anos, natural de Votuporanga-SP, mora há 14 anos em Bom Jardim de Goiás, no Assentamento Sonho de Rose, interior de Goiás. Ela é a filha do meio de três irmãos, a única menina. 

Luciana teve uma infância típica de criança do interior, brincando, com os irmãos, descalça na rua de terra e voltando para casa no final do dia, com as roupas sujas de barro. A família mudava muito de casa, mas todas tinham um padrão semelhante: eram casas pequenas, com no máximo dois cômodos para 5 pessoas, sem reboco, piso ou banheiro.

Luciana conta que o momento mais triste da vida dela, foi quando foi morar em uma casa que não tinha teto, nem banheiro. “Aquela casa não tinha o mínimo para chamar de lar. Eu tinha vergonha, não chamava meus amigos para irem na minha casa”, conta a produtora. Sempre que chovia molhava tudo e a família ficava desesperada. Até hoje, Luciana tem medo de chuva. Ela lembra ainda que em outra moradia, a chuva e o vento forte levaram o telhado e a família ficou desabrigada. Depois desta chuva eles dormiram 20 dias em uma construção, sem cama e sem móveis.

Dona Rosa e o senhor Dercides, os pais de Luciana, trabalhavam como boias-frias, e os filhos ajudavam-nos nas colheitas do que estavam produzindo na época, seja laranja, café ou algodão. E foi assim que Luciana desenvolveu o amor pelo campo. Apesar de ter que acordar de madrugada para trabalhar, ter que comer comida fria, ficar o dia inteiro em baixo do sol em condições nada agradáveis, essas experiências foram determinantes para a escolha da profissão que iria seguir.

Luciana é uma empreendedora rural que, em 2009, adquiriu uma propriedade de 35 hectares no Assentamento Sonho de Rose. Ela mora em uma casa que foi construída do zero(a partir do térreo), com três quartos, cozinha, sala e banheiro. A casa representa o resultado do esforço e empreendedorismo de Luciana, que transformou sua propriedade em um lar acolhedor. Ela tira seu sustento através da produção de leite e venda de gado de corte. Atualmente, ela possui 20 vacas leiteiras. Doze delas são ordenhadas diariamente, com a ajuda de uma ordenhadeira mecânica, que torna o processo mais rápido, levando em média de 30 a 40 minutos.

Finalizada a ordenha, primeira tarefa do dia, ela transfere o leite para um tanque resfriador e aguarda a coleta pelo laticínio, que passa três vezes na semana. A transferência é feita de modo manual: os tambores precisam ser carregados nas costas para que o leite seja despejado no tanque resfriador. Devido ao peso dos tambores de leite, Luciana sente muitas dores nas costas e tem problemas de coluna.

Durante as manhãs, ela realiza diversas atividades na propriedade, como: deslocar o gado para pastos diferentes, fazer reparos nas cercas, desligar o sistema de choque elétrico, identificar as vacas que estão no período de cio para inseminação, cuidar dos animais doentes, aplicar vacina, fazer adubação do pasto.

Luciana menciona que o manejo do pasto é o trabalho mais demorado, incluindo plantar, colher e fazer silagem. Ela se orgulha do que conquistou, através de cursos profissionalizantes voltados para atender suas necessidades no campo, e de sua força de vontade e empenho para superar obstáculos que encontra no dia a dia.

Em uma profissão predominantemente masculina, Luciana conquistou seu espaço, trabalhando com gado leiteiro e de corte, produzindo silagem e enquadrando-se na agricultura familiar. Ela se tornou referência em sua cidade e comunidade por ter uma propriedade sustentável, apesar da pouca área de terra.

Ela, porém, não trabalha sozinha, tem o apoio da mãe e das suas duas filhas adolescentes, com 14 e 12 anos, que ajudam nos afazeres. A união de forças na família, faz o trabalho ser menos árduo e mais rentável. A renda mensal é de média 5 mil reais, e conquistas que nem sonhavam acontecer, se tornaram possíveis, como a aquisição do primeiro trator e de alguns maquinários.

A união das mulheres, as torna mais fortes, destaca o professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), doutor em Sociologia Luís Antônio Bitante Fernandes: “Quando as mulheres se unem elas são mais fortes, elas conseguem alcançar espaços e coisas que sozinhas não seria possível”.

Herança de mãe para filha

 
 

A garra e a determinação provavelmente Luciana, herdou da mãe, dona Rosa, que se separou do marido com os filhos pequenos, tendo que fazer jornada dupla de trabalho, como boia-fria e como empregada doméstica, para sustentar a família. Trabalhar e lutar pelos seus sonhos para dar um futuro diferente para seus filhos, sempre foi a missão de sua vida. Rosa mostrou também a eles como o trabalho duro e a perseverança podem levar a resultados positivos. A luta para ter direito a terra própria não foi tarefa fácil, foram 6 anos acampada na beira da estrada, em condições precárias.

Quando as crianças se tornaram adultos, dona Rosa resolveu mudar para Torixoréu (MT) e reencontrar seu ex-marido, com quem voltou a viver junto, depois de alguns anos separada. Logo mudaram para Bom Jardim de Goiás (GO), ficaram acampados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST), conquistaram sua primeira terra própria e pararam de trabalhar, como empregados, em outras fazendas.

Atualmente, Rosa arrenda sua propriedade para a filha Luciana, para que ela possa ter um espaço maior para a criação do gado, já que Luciana comprou a propriedade vizinha.

Rosa cuida da casa, dos animais domésticos e das netas, enquanto a filha é responsável pelos cuidados com os animais (bois e vacas), alimentação, cercas e outras atribuições com as criações.

A paixão pelo campo e a visão empreendedora, Luciana foi adquirindo com o tempo. Logo que comprou a terra no Bom Jardim ela se separou do marido. Apesar dele ter deixado os bens para ela, a vida para uma mulher com duas crianças pequenas tem seus desafios. E foram as crianças que não a deixaram desistir. Ela sempre trabalhou muito, para nunca faltar comida na mesa, e ensinou as suas filhas desde pequenas que é necessário trabalhar para conseguir as coisas.

Rompendo preconceitos

 
 

As mulheres não são a maioria no trabalho rural, mas já ocupam lugar de destaque atualmente. Segundo a técnica de campo do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-GO), Ana Claudia Santos Alves, de 30 produtores que ela presta consultoria hoje, 10 são mulheres. A técnica conta que elas fazem de tudo em sua propriedade, do cuidado da casa ao curral, a maioria tem idade avançada, chegando até 75 anos e tem muita disposição. Estas mulheres trabalham dentro e fora do campo, elas não gostam de pausas para descanso, o trabalho é o que faz elas se sentirem vivas, assim como a dona Rosa e sua filha Luciana. As mulheres que trabalham na área rural, porém, ainda, em muitas ocasiões, são vítimas de preconceito.

Luciana conta que foi com seu trabalho que conquistou respeito e lembra que já se viu em situações constrangedoras. “Há cerca de dez anos, fui chamada para trabalhar como tratorista em uma propriedade vizinha, onde passei o dia todo fazendo silagem junto com vários outros homens. No entanto, no dia seguinte, fui surpreendida pela filha do proprietário, que me acusou de não estar trabalhando e insinuou que eu estava lá por outros motivos. Fiquei extremamente constrangida e chateada com o tratamento que recebi, pois sabia que estava lá para trabalhar e que tinha a capacidade de fazer o meu trabalho com excelência. Infelizmente, a pessoa que me acusou não sabia disso e acabou me julgando de forma injusta. Essa situação foi muito triste e me marcou profundamente."

Ana Claudia, engenheira agrônoma e técnica de campo do Senar-GO, da cidade de Cachoeira de Goiás, também relata que enfrentava dificuldades para ser aceita no mercado de trabalho, por conta do preconceito de gênero e do ciúmes das esposas dos gerentes. Segundo ela, em alguns casos, as esposas não se sentiam confortáveis com a ideia de contratar mulheres, em vez de homens, para estagiar. Ana Claudia chegou a achar que nunca conseguiria um estágio em sua área, até que participou do último curso de Aceleração de Carreiras, do Senar, que lhe deu a oportunidade de ser encaminhada para uma vaga de emprego. "Se não fosse isso, acredito que ainda estaria tentando", afirma. Infelizmente, histórias como a de Ana Claudia são comuns no mercado de trabalho, onde as mulheres ainda enfrentam muitos obstáculos para conquistar seu espaço e serem valorizadas pelo seu trabalho e competência.

Dentre as histórias contadas, as mulheres mostram que a diferença de gênero não deve ser barreira para o sucesso e que é possível se destacar em áreas que foram historicamente dominadas por homens. Além disso, elas também inspiram outras mulheres a buscar seus espaços e se empoderarem, tornando-se cada vez mais presentes em áreas que antes eram inacessíveis. Seria também importante que as mulheres se unissem como ressalta o professor Bitante “Uma mulher que cresce sozinha, tem que saber dar a mão para a outra subir também”.

A propriedade de Luciana serve de exemplo para estudantes e produtores da região pois mesmo sendo uma área pequena, tem um pastejo rotacionado, que garante alimentação para seus animais e é sustentável. O técnico de campo que visita sua propriedade uma vez por mês, para dar assistência técnica e gerencial pelo Programa de Investimento Florestal (FIP), cita o sítio e o nome da produtora, como exemplo para outros produtores. Ela é reconhecida porque consegue desempenhar trabalhos, que muitos têm dificuldades, como o manejo, a divisão de pasto e a administração da propriedade.

Quando o técnico usa a produtora Luciana para incentivar outros produtores homens a realizar as recomendações que ele passou, mostrando que ela por ser mulher, ter menos poder aquisitivo, realiza, o que impedi eles de fazer também. É importante nesse caso, em que a propriedade é referência por ser gerenciada por uma mulher, conforme o professor Bitante ressalva, pensar no processo de produção discursiva. “Ele [o técnico] pega o lugar de inferioridade da mulher, dentro do contexto de relações que estamos inseridos de homem e mulher (gênero), e acaba não enaltecendo as qualidades e sim colocando ela no lugar de inferioridade em relação aos homens. Talvez ele nem pense de forma proposital, mas para quem já tem conhecimento sobre gênero fica mais fácil para fazer essa análise de discurso”, comenta.

“Preconceito para mim é se achar melhor do que o outro. Na sociedade tem vários tipos de preconceitos. Eu sou um tipo de pessoa que quando vê um defeito no outro, eu mudo em mim, pois não conseguimos mudar o outro”, relata a Luciana. Quando o preconceito é no trabalho, Luciana diz: “Quando o preconceito é comigo, por eu estar em uma atividade que eles julgam não ser a certa, eu não deixo isso me abalar”, dispara Luciana.

*Bruna Priscila da Gloria Sousa - Trabalho de Conclusão de Curso para obtenção do diploma, graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo - Junho de 2023, sob a orientação da Dra Patrícia Kolling. Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Câmpus Universitário do Araguaia Instituto de Ciências Humanas e Sociais Comunicação Social - Jornalismo

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