A função civilizadora do comércio

Por JOSÉ DE PAÍVA NETTO 10/09/2018 - 14:10 hs

Neste artigo dividido em quatro partes, apresento com exclusividade a vocês, leitoras e leitores trechos do capítulo VII dos originais de minha obra O Capital de Deus, nascidos de improvisos no rádio e na televisão.

 

Boa leitura!

 

Com saudade, vêm-me à memória ensinamentos que o meu saudoso pai, Bruno Simões de Paiva (1911-2000), me transmitia, quando ainda eu era jovem. Uma das coisas que nunca esqueci foi a menção à famosa Rota da Seda, conhecida desde os tempos dos romanos, sendo uma das mais importantes durante a Idade Média. Com mais de 6 mil quilômetros de comprimento, viabilizava o comércio entre o Ocidente e o Oriente.

 

Esse antigo roteiro comercial acabou tornando-se também um corredor para a troca de ideias entre as duas faces do mundo. (...) Os Irmãos budistas não perderam a oportunidade: expandiram o pensamento do Sakya-Muni*para outros povos por meio das condições favoráveis que o formidável caminho lhes oferecia*2. Das eras mais remotas da História chega-nos o preceito de que o comércio possui um exercício civilizador. Basta ver que os negociantes fundaram inúmeros povoados ao longo dos trajetos, o que lhes proporcionou consequentemente o aumento dos seus ganhos, como nas viagens marítimas dos fenícios que inauguraram feitorias por onde passavam. No Brasil, temos o exemplo das Entradas e Bandeiras. Infelizmente, tudo regado a sangue, no grande banquete da violência. O ser humano ainda trilha caminhos distanciados, até que entenda constituir, ele próprio, o Capital de Deus.

 

Os efeitos de conhecer a Espiritualidade Superior

Trata-se de trabalho de longo prazo, mas se, por um lado, a atividade mercantil estabeleceu, em várias épocas, pequenas comunidades que, mais tarde, se tornariam até mesmo grandes metrópoles, por outro, não pode deixar de ela própria (a atividade mercantil) sofrer um processo urgente de civilização com Espiritualidade Celeste, para que não se veja, em algum momento, alvo desta parábola em que Jesus reprova a avareza (Evangelho, segundo Lucas, 12:13 a 21):

 

A parábola do rico insensato*3

“13 Nesse ponto, um homem que estava no meio da multidão Lhe falou: ‘Mestre Jesus, ordena a meu irmão que reparta comigo a herança’.

“14 Mas Jesus lhe respondeu: ‘Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós?’

“15 Então lhes recomendou: ‘Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza, porque a vida de um Homem não consiste na abundância dos bens que ele possui’.

“16 E lhes proferiu ainda uma parábola, dizendo: ‘O campo de um homem rico produziu com abundância’.

“17 E ele arrazoava consigo mesmo: ‘Que farei, pois não tenho onde recolher os meus frutos?’

“18 E disse: ‘Farei isto: destruirei os meus celeiros, os reconstruirei maiores e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens.

“19 Então direi à minha Alma: Tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come e bebe, e regala-te!’

“20 Mas Deus então lhe disse: ‘Louco! Esta noite te pedirão a Alma; e o que tens preparado para quem será?’

“21 ‘Assim acontece a quem entesoura para si, e não é rico diante de Deus’”.

 

Como espiritualizar, porém, a atividade humana sem que os seres humanos reconheçam a veracidade do Mundo Espiritual e suas Leis? O Plano Invisível*4 é ainda insondável (mas deixará de ser) aos restritos sentidos físicos, pois constitui uma realidade, um Poder Ético Transcendental, que o exímio poeta Alziro Zarur (1914-1979), saudoso fundador da Legião da Boa Vontade, descreve no seu Poema do Deus Divino, retratado nessas estrofes:

 

Poema do Deus Divino

O Deus que é a Perfeição, e que ora eu tento

Cantar em versos de sinceridade,

Eu nunca O vi, como em nenhum momento

Vi eu o vento ou a eletricidade.


Mas esse Deus, que é o meu eterno alento,

Deus de Amor, de Justiça e de Bondade,

Eu, que O não vejo, eu O sinto de verdade,

Como à eletricidade, como ao vento.

 

Nanotecnologia e crença

Nestes tempos de nanotecnologia*5, não é tão necessário ver para acreditar, mesmo cientificamente. Leucipo (460-370 a.C.) e Demócrito (470-370 a.C.) enunciaram a existência do átomo, mas nem por isso o enxergaram, o tocaram ou sentiram o seu cheiro.


Assim acontece, ainda hoje, relativamente ao Reino de Deus, que, antes de ser registrado pelos nossos olhos, deve ser pressentido por nosso coração. Disse o Cristo: “O Reino de Deus está dentro de vós” (Evangelho do Cristo, segundo Lucas, 17:21).

 

Aliás, o órgão — considerado no Ocidente como representativo do sentimento — alcança, vezes bastantes, mais prontamente aquilo que o cálculo demora a concluir. Grande avanço para a humanidade será o dia em que coração esclarecido e mente percebida da Mecânica Espiritual caminharem juntas.

 

Como afirmou o papa João Paulo II (1920-2005): “Na realidade, todas as coisas, todos os acontecimentos, para quem os sabe ler com profundidade, encerram uma mensagem que, em definitivo, aponta para Deus.”