Sem público e sem dinheiro, Estado arca com prejuízos da Arena Pantanal

Por Vinícius Lemos/RD News 11/06/2018 - 09:31 hs

Foto: Reprodução
Sem público e sem dinheiro, Estado arca com prejuízos da Arena Pantanal
Arena Pantanal não está concluída e causa prejuízo de R$ 400 mil/mês ao governo estadual

Palco dos jogos sediados em Cuiabá na Copa do Mundo de 2014, a Arena Pantanal segue incompleta. A construção do estádio custou, até o momento, R$ 600 milhões. Quatro anos depois e às vésperas de um novo Mundial, desta vez na Rússia, ainda não tem sequer prazo para que seja concluída.

Promessas de um estádio revolucionário em plena Capital mato-grossense hoje dão lugar a um “elefante branco”. A Arena consome, mensalmente, R$ 400 mil, sendo R$ 220 mil apenas em energia elétrica. Sua finalidade multiuso é pouco explorada, pois são raros os eventos de grande porte em Cuiabá. Os jogos estaduais que são sediados no local têm pouco público, cerca de 400 pagantes. Diante das dificuldades, os cofres públicos estaduais se tornaram os responsáveis por bancar uma obra que hoje traz prejuízo a Mato Grosso.

Logo que houve o anúncio de que a Capital mato-grossense sediaria quatro jogos, o tradicional Estádio Governador José Fragelli, o Verdão, foi demolido. A medida visava cumprir uma exigência da Fifa, responsável pelo Mundial: todos os jogos da Copa deveriam ser realizados em arenas.

A construção da Arena Pantanal foi iniciada em abril de 2010. O valor inicial era de R$ 342 milhões, recursos obtidos por meio de empréstimo feito pelo Estado junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Em razão dos aditivos ao longo dos anos, a obra custou, até o momento, R$ 596 milhões aos cofres públicos. Atualmente, 98% da construção estão executados. A expectativa é de que o total da Arena, que ocupa uma área média de 300 mil m², seja correspondente a R$ 616 milhões.

Durante toda a sua gestão, o ex-governador Silval Barbosa afirmava que a Arena ficaria pronta a tempo da Copa do Mundo. O estádio sediou os jogos, porém nunca foi uma obra completa. Faltam itens estruturais e correções pontuais necessárias, como equipamentos para que os telões do estádio funcionem.

Obras inacabadas

A construção da Arena possui cinco contratos. Destes, os três mais caros apresentam dificuldades para serem concluídos, em razão de divergências entre o Executivo estadual e as empresas.

O contrato mais caro é o de obras civis, firmado com a construtora Mendes Júnior, cujo valor atual é correspondente a R$ 453 milhões. Conforme a secretaria de Estado de Cidades (Secid), a empresa já executou 98,4% da construção da Arena. O contrato está na Justiça, em razão de divergências entre o Estado e a construtora. No ano passado, houve diversas reuniões entre as partes, porém não chegaram a um acordo.

O Consórcio CLE é o responsável pela parte tecnológica da Arena Pantanal. O contrato entre o Estado e a empresa tem valor final correspondente a R$ 110,8 milhões. Segundo a Secid, 92,1% do acordo foi executado até o momento. A pasta afirmou que trabalha para chegar a uma conciliação com o consórcio para garantir o retorno do funcionamento de itens como o telão, catracas e som no estádio, que são responsabilidades firmadas no contrato. Conforme a secretaria, o caso está sendo analisado pela Procuradoria Geral do Estado (PGE) e pela Controladoria Geral do Estado (CGE).

Outro acordo que também enfrenta dificuldades para conclusão é o contrato com a empresa Kango Brasil. Os serviços de instalação dos equipamentos mobiliários esportivos – bancos para arquibancada, jogadores reservas e do vestiário – estão conclusos. No entanto, a empresa precisa realizar correções pontuais nos assentos, que apresentam desbotamentos, falhas de rebatimento, além de erros nas fixações e nas plaquetas de identificação.

Em uma fiscalização, o Inmetro apontou as diversas falhas nos assentos da Arena. Em razão disso, a Secid afirmou que atualmente tem realizado testes para verificar os produtos entregues pela Kango Brasil e tem solicitado a documentação comprobatória dos itens. O valor do contrato entre a empresa e o Estado é de R$ 18,2 milhões. Até o momento, foram feitos 93,97% dos serviços. O caso passa por análise na Procuradoria Geral do Estado, para possível acordo judicial referente à conclusão integral dos serviços.

Não há prazo para que as obras sejam totalmente concluídas. Os imbróglios judiciais dificultam ainda mais a situação.

O secretário-adjunto de Esporte e Lazer, Franz Corrêa, relata que apesar de inconclusa, a Arena tem capacidade para sediar diversos eventos e tem funcionado normalmente. “Alguns pontos, como o telão e outras pequenas coisas, são afetados por essas obras inacabadas. Mas os jogos de futebol e os eventos não são atrapalhados em nada por isso”, declara.

Multiuso

A característica mais ressaltada pelo ex-governador Silval Barbosa, e posteriormente por Pedro Taques (PSDB), é o fato de a Arena Pantanal ter uma característica multiuso. Desta forma, o local pode sediar partidas de futebol de pequeno ou grande porte e outros diversos tipos de eventos.

“Como todas as outras arenas do Brasil, ela tem essa função multiuso. Para assegurar os seus custos, seria preciso fazer diversos eventos, de diferentes estilos”, explica Franz Corrêa.

Os grandes eventos que acontecem no local, porém, são considerados raros. A última partida nacional sediada na Arena foi entre Flamengo e Fluminense, em 24 de fevereiro passado. O próximo jogo deve acontecer em 8 de julho, um amistoso entre Corinthians e Grêmio antes do Brasileirão.

Os jogos nacionais são considerados os maiores trunfos do local. Porém ainda acontecem poucas vezes. As partidas estaduais são mais comuns, mas não costumam reunir muito público.

No ano passado, aconteceram 260 eventos no complexo da Arena Pantanal – que inclui o estádio, a piscina e o ginásio. No entanto, eles não foram suficientes para fazer com que o Estado deixasse de arcar com a maior parte dos custos mensais do local.

O evento mais recente foi uma festa eletrônica, no início de maio, que reuniu cerca de cinco mil pessoas. O fato gerou críticas, pois chegaram a afirmar que a festa teria prejudicado o gramado e a estrutura do local.

No entanto, a Secretaria Adjunta de Esporte e Lazer negou que o evento tenha causado danos ao estádio. Por meio de nota, divulgada dias após o evento, a pasta mencionou a estrutura multiuso da Arena e afirmou que os eventos de lazer no local, "além de estar em conformidade com os objetivos da pasta e não prejudicar as atividades esportivas no estádio, seguem uma tendência nacional em dar utilidade pública aos estádios da Copa”.

A expectativa é de que o local sedie, em agosto, um festival de rock, nos dias 18 e 19, com atrações nacionais e internacionais.

O fato de grandes eventos não serem frequentes é uma das grandes dificuldades enfrentadas pelo Estado. “Os empresários são que trazem os eventos e os jogos. Eles apresentam ao Estado, negociam e formalizam o aluguel da Arena. Mas como esses eventos não acontecem sempre, esse dinheiro não é sempre que vem para o Estado e para a manutenção da Arena”, declara Franz Corrêa.

Diante das dificuldades encontradas sobre o destino do local, o Governo do Estado criou a Arena da Educação, uma escola que aproveita as instalações do estádio e tem o esporte como um de seus focos principais. Ela funciona em período integral e atende 315 estudantes, da sétima série ao primeiro ano do Ensino Médio. A unidade de ensino tem 12 salas de aula e funciona nos camarotes do lugar.

O Estado tem buscado alternativas para utilizar a Arena e tentar fazer valer os R$ 600 milhões investidos no local até o momento. Porém, cada vez mais fica evidente os prejuízos trazidos pelo estádio e a incerteza do Poder Público sobre como lidar com um dos maiores “elefantes brancos” da Copa do Mundo de 2014.