Educação Popular e Saúde: práticas educativas do ambulatório de reumatologia do Hospital Universitário Júlio Muller - HUJM Cuiabá-MT

Educação Popular e Saúde: práticas educativas do ambulatório de reumatologia do Hospital Universitário Júlio Muller - HUJM Cuiabá-MT

Por Nair da Costa Barbosa 25/07/2018 - 09:54 hs

Foto: Reprodução

Nair da Costa Barbosa [1]



RESUMO


Este artigo tem como objetivo investigar Analisar o processo de educação popular e saúde desenvolvidas na APDRA aos usuários do Ambulatório de Reumatologia do HUJM portadores de doenças reumáticas auto-imune. Para alcançar os objetivos propostos, esta pesquisa foi desenhada como um estudo de caso com abordagem qualitativa do tipo descritivo-exploratório, com alguns dados quantitativos, que possibilitou responder as hipóteses e variáveis. A coleta de dados foi através de pesquisa bibliográfica no biblioteca setorial do departamento de serviço social da UFMT, biblioteca do HUJM, Plantão Social, e entrevista com aplicação de questionário aos profissionais e usuários. Como resultado, esta pesquisa mostra avanços nas práticas de educação popular em saúde desenvolvidas através da APDRA, que vem a contribuir para o processo de melhoria de qualidade de vida das pessoas portadoras de doenças reumáticas auto-imune, através do fortalecimento da mudança de comportamento da população Lúpida.

Palavras-Chave: Educação Popular em Saúde, Práticas Educativas, Lúpus.


[1] Autora – Mestre em Ciências da Educação pela Universidad Tecnica de Comercialización y Desarrolo naircbarbosa@hotmail.com

 

EDUCAÇÃO POPULAR E SAÚDE: PRÁTICAS EDUCATIVAS DO AMBULATÓRIO DE REUMATOLOGIA DO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO JÚLIO MULLER- HUJM CUIABÁ-MT. [1]

Nair da Costa Barbosa [2]

 

ABSTRACT

This article aims to analyzes the process of popular and health education developed at APDRA for the users of the UHJM’s Rheumatology Clinic with autoimmune rheumatic diseases. To achieve the proposed objectives, this research was designed as a case study with a qualitative, descriptive and exploratory approach, with some quantitative data, which made it possible to answer the assumptions and variables. Data collection was through literature on the UFMT’s social service department sectoral library, Social Duty, and interviews with questionnaires applied to professionals and users. As a result, this research shows advances in popular education practices in health developed by APDRA, which has to contribute to the process of improving the quality of life of people with autoimmune rheumatic diseases, by strengthening behavior change on the population

Keywords: Popular Education in Health, Educational Practices, Lupus.


[1] Article extracted from the Master's Dissertation in Educational Sciences at the Technical University of Marketing and Development, Paraguay, 2011.

Author - Master in Educational Sciences by the Technical University of Marketing and Development Desarrolo naircbarbosa@hotmail.com

 

INTRODUÇÃO


A produção desse trabalho científico é resultado da experiência profissional desenvolvida no HUJM - Hospital Universitário Júlio Müller. O interesse em discutir sobre a organização da APDRA e seu processo de educação em saúde foi decorrente da atuação no ambulatório e inserção nas atividades realizadas pela equipe multiprofissional que realiza atendimento as pessoas com doenças reumáticas auto-imunes. A partir desse processo passamos a realizar atividades de assessoria junto a associação.


As doenças reumáticas auto-imune são um grupo de doenças relacionadas entre si, que envolvem qualquer órgão ou sistema do organismo humano, que atingem simultaneamente ou sequencialmente esses orgãos ou sistemas e outras dirigidas especificamente contra alguns deles, como, o sistema nervoso, os aparelhos digestivo e respiratório,pele, sangue, olhos, articulações e glândulas endócrinas, entre outros. Aos primeiros sinais com diagnóstico precoce e tratamento adequados, as chances são muitas para o controle e até remissão de doenças reumatológicas (NEDAI, 2009)


Nesta perspectiva a educação popular em saúde, quando conduzidas por profissionais de saúde capacitados, com suas competências delineadas no processo de aprendizagem contribuem para o melhor controle metabólico do indivíduo, pois cabe àqueles a responsabilidade de produzir as condições favoráveis ao processo de aquisição de conhecimentos sobre o a doença reumática auto-imune, que possam levar à mudança nos hábitos de vida e manejo da doença


Nesse caminho, encontra-se a Associação de portadores de doenças reumáticas auto-imune - APDRA, que vem desenvolvendo práticas educativas aos usuários de Ambulatório de Reumatologia do Hospital Universitário Júlio Muller – HUJM com o processo de aprendizagem na busca de qualidade de vida dos portadores de doenças reumáticas auto-imune e Lupus.


A construção desse trabalho deu-se através de alguns procedimentos metodológicos em quatro momentos intercomplementares, sendo o primeiro a pesquisa bibliográfica, objetivando construir as categorias da análise, o segundo, a pesquisa documental, visando a identificar os principais documentos produzidos pelo APDRA, o terceiro momento a pesquisa de campo, utilizando, como instrumento de coleta de dados, questionário, e no quarto momento a análise dos dados coletados que foram estudados, de forma predominantemente qualitativa, sem que, no entanto, se deixasse de considerar seus aspectos quantitativos. . A escolha dos sujeitos, foi  40 usuários do ambulatório e profissionais que fazem parte da equipe do Programa de Atendimento as pessoas com doenças reumáticas auto- imune, como o médico coordenador do programa, a psicóloga, a enfermeira dentre outros.


A relevância deste estudo se dá a partir da noção de que a valorização de uma cultura participativa dentro das instituições de saúde contribui para aumentar a autonomia e elevar a auto-estima dos usuários, melhorando a qualidade de vida e de saúde dos mesmos.


CONHECENDO EDUCAÇÃO POPULAR EM SAÚDE


A educação em saúde permeia, basicamente, os grandes meios de comunicação de massa e os serviços primários de saúde, enfatizando a estruturação de instrumentos educativos, com vistas a propiciar a interação cultural entre população e profissionais de saúde, buscando nas práticas de educação sanitária tradicionais ensinar aos pacientes os cuidados com o corpo, a saúde, prevenção e tratamento das doenças (BARROSO, 2003)


A educação popular em saúde é o processo contínuo que busca adequar o conhecimento científico dos profissionais de saúde à realidade da população, gerando um sistema de troca de saberes, no qual a articulação dos diferentes grupos possibilita a reflexão e o estudo sobre as práticas educativas, sociais e de saúde. A sua tecnologia educacional propõe uma possível condução do processo educativo, visando, quase sempre, a apuração, organização, conscientização e aprofundamento do sentir, pensar e agir das diversas categorias de sujeitos e grupos oprimidos da sociedade, bem como, de seus parceiros e aliados.


Segundo Bertrand (2001.p. 151) a educação popular situa-se dentro das teorias sociais, uma vez que acredita que a educação pode contribuir para a transformação social, desempenhando papel fundamental na reconstrução da sociedade. Entre teorias sociais, a educação popular situa-se entre as pedagogias da conscientização, tendo Freire (2007) seu principal representante.

Nesse sentido Arroyo (2001, p 21), diz que a educação popular em saúde pretende investir no diálogo entre os sujeitos, na educação humanizadora e no trabalho com a totalidade das dimensões do sujeito. Procura lembrar que o corpo, a palavra, a consciência, os hábitos e o trabalho são eixos temáticos fundamentais, pois são o lugar de encontro entre a educação e a saúde e devem nortear qualquer capacitação dessas áreas do conhecimento

A educação popular procura reorientar as estratégias de capacitação, fazendo-as a partir das angústias, experiências prévias e desejo de superação das dificuldades. Com isso, procura resgatar o humano de cada um (Vasconcelos, 2001).


A educação popular é vista como forma de superação do fosso cultural entre os serviços de saúde e a população assistida. O usuário é reconhecido como sujeito portador de um saber sobre o processo saúde-doença-cuidado, capaz de estabelecer uma interlocução dialógica com o serviço de saúde e de desenvolver uma análise crítica sobre a realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de luta e enfrentamento (Vasconcelos, 2001).


Assim a educação popular em saúde tem priorizado a relação educativa com a população, rompendo com a verticalidade da relação profissional-usuário, onde são valorizadas as trocas interpessoais, as iniciativas da população e usuários e, pelo diálogo, buscam-se a explicitação e compreensão do saber popular.


O ponto fundamental da educação popular é o fato do processo pedagógico partir do saber das classes populares, utilizando-o como matéria prima para a construção do conhecimento necessário para a transformação da realidade; essa construção ocorre por meio do diálogo sendo compartilhada pelos sujeitos envolvidos no processo (Vasconcelos, 2001) 


Sobre isto, Stotz (2004, p. 45) afirma que existem várias experiências descritas de educação popular e saúde com resultados significativos para a transformação da forma de pensar a saúde, em especial para “consolidação de um trabalho efetivamente capaz de incluir comunidade e usuários no processo de cuidar e promover a saúde”.


Na ótica da educação popular em saúde, as relações entre as equipes de saúde e os usuários dos serviços são vistas como um processo de aprendizagem mútua, que envolve crenças, valores e percepções de mundo. (VASCONCELOS, 2001).

Para se alcançar o sucesso de uma atividade educativa deve-se partir da sistematização de um componente capaz de integrar uma metodologia de educação popular, que esteja pautada na formação de grupos de interesses comuns, oportunizando discussões com a comunidade e promovendo a aproximação dos profissionais com os movimentos sociais (Wendhausen e Saupe, 2003).


Neste estudo que refletiu sobre o processo de educação popular e saúde desenvolvidas na APDRA aos usuários do Ambulatório de Reumatologia do HUJM portadores de doenças reumáticas auto-imune, cujas práticas educativas visa orientar e estabelecer juntos com os usuários a tomada de decisão para a conscientização e conseqüente transformação da realidade.


Ressaltamos que a prática educativa em saúde, além da formação permanente de profissionais para atuar nesse contexto, tem como eixo principal a dimensão do desenvolvimento de capacidades individuais e coletivas visando à melhoria da qualidade de vida e saúde da comunidade assistida pelos serviços, tomando por princípio norteador a Política Nacional de Promoção da Saúde, conforme as diretrizes também estabelecidas pela carta de Otawa, reforçando que a educação e a saúde são práticas sociais inseparáveis e interdependentes que sempre estiveram articuladas, sendo consideradas elementos fundamentais no processo de trabalho dos profissionais da saúde (BUSS, 1999).


Essa afirmativa nos remete ao consenso de que a formação profissional afeta profundamente a qualidade dos serviços prestados e o grau de satisfação dos usuários quanto ao reconhecimento do SUS como proposta efetiva pautada nas diretrizes e nos princípios organizativos da Constituição Federal de 1988 e nos desdobramentos da Lei 8.080 (BRASIL, 2007a).


Assim a educação em saúde no contexto dos serviços de saúde pública tem importantes dimensões a serem tratadas: a educação permanente em saúde como política norteadora dos processos educativos contínuos nos diferentes arranjos assistenciais do SUS, com suas diversas denominações (capacitações, treinamentos, cursos, atualizações, aperfeiçoamento entre outros); e a educação popular em saúde, que reconhece que os saberes são construídos diferentemente e, por meio da interação entre sujeitos, esses saberes se tornam comuns ao serem compartilhados (GONÇALVES et al., 2008).

 

Educação em Saúde como Prática Social

 

A educação e a saúde são campos de produção e aplicação de saberes destinados ao desenvolvimento humano. Quando se requer práticas educativas em saúde, há uma interseção entre estes dois campos, em qualquer nível de atenção à saúde, mediada pela aquisição contínua de conhecimentos pelos profissionais de saúde e usuários. Assim os profissionais de saúde e usuários envolvem-se mesmo inconscientemente, num ciclo permanente de ensinar e se aprender.


A educação em saúde torna-se nesta perspectiva uma “construção compartilhada de conhecimento”, parte das experiências e práticas dos sujeitos envolvidos e busca “intervenção nas relações sociais que vão influenciar a qualidade de suas vidas”, consequentemente vão produzir representações (Carvalho, 2001).

A educação em saúde pressupõe uma combinação de oportunidades que favoreçam a manutenção da saúde e sua promoção, não entendida somente como transmissão de conteúdos, mas também como a adoção de práticas educativas que busquem a autonomia dos sujeitos na condução de sua vida, ou seja, educação em saúde nada mais é que o pleno exercício de construção da cidadania (Pereira, 2003).


As Diretrizes da Educação para a Saúde, Brasil (1980. p. 370) define educação em saúde como "uma atividade planejada que objetiva criar condições para produzir as mudanças de comportamento desejadas em relação à saúde". Subentende-se aqui que a educação em saúde, tal como definida pelas Diretrizes, tem como intenção nítida reforçar padrões de saúde concebidos pelo governo para a população.


Levando-se em consideração que a educação em saúde torna-se uma "construção compartilhada de conhecimento", a educação parte da experiência e práticas dos sujeitos envolvidos buscando "intervenção nas relações sociais que vão influenciar a qualidade de suas vidas" e que conseqüentemente vão produzir outras representações (CARVALHO & ACIOLI, 2001).


Percebe-se que a educação em saúde deve, portanto, partir de uma necessária articulação entre representações sociais e experiência da doença. A representação social apresenta um limite que se situa na generalidade do seu nível de análise, aspecto que pode ser superado incluindo a dimensão da experiência individual e coletiva dos sujeitos com a doença (HERLICH, 2001).

Além disso, as representações sociais no seu conjunto não se reduzem a sistemas fechados definindo as práticas, constituem, ao contrário, um conjunto aberto, heterogêneo, um campo de acordos e de conflitos, em relação a outros tipos de conhecimentos, que é continuamente refeito, ampliado, deslocado, transformado durante as interações indivíduo-indivíduo e indivíduo-sociedade (GOMES et al, 2002).


Atualmente a prática educativa a ser feito, deve extrapolar o campo da informação, e integrar a consideração de valores, costumes, modelos e símbolos sociais que levam a formas específicas de condutas e práticas. Agregar "valor" na educação em saúde, implica que o educador reconhece que o sujeito é detentor de um valor diferente do dele e que pode escolher outros meios para desenvolver suas práticas cotidianas. Há uma postura de aprendiz de ambos os lados e há na realidade possibilidades de trocas no processo educativo (CARVALHO & ACIOLI, 2001).


Assim, para instituir a educação em saúde como medida eficaz de intervenção no processo saúde-doença e para estabelecer uma prática educativa satisfatória, é imprescindível conhecer a realidade dos indivíduos com as quais se deseja realizar uma ação educativa bem como suas potencialidades e suscetibilidades avaliadas em um âmbito holístico, o programa de Educação pode e deve ser adaptado às necessidades, capacidades, interesses e conhecimentos pré-existentes de cada indivíduo, devendo, portanto, esta ação ser estruturada e sistematizada.

 

Educação em Saúde e a Pedagogia de Paulo Freire

 

Os ensinamentos de Paulo Freire perpassam tanto o ensino formal, quanto o ensino informal e são fontes de motivação para muitos estudos nos vários campos do saber, devido aos desdobramentos que possibilita, estabelecendo a construção de novas condutas orientadas através de um pensar e refletir contínuos.


A educação para Freire (1996) é um ato de conhecimento, que se dar através da relação dialógica entre educador, educando e objeto de conhecimento que são resultados diretos de uma proposta pedagógica que se centraliza-se nas diversas abordagens durante o processo de ensino-aprendizagem.


Para Freire (2007a), o processo educativo é essencialmente dialógico, pois o autor acredita que sem a conversação em duas ou mais pessoas não há educação. Nesse processo educativo temos que reconhecer que se trata de um processo de conhecimento onde todos ensinam e todos aprendem em uma relação recíproca. Os envolvidos nesse processo devem estar dispostos a se abrirem para o novo e terem a convicção de que sempre há algo para se ensinar e aprender nessa dinâmica dialógica.


Em todo processo educativo, especialmente, na área da Educação em Saúde o homem deve ser visto como alguém que não vive isolado, e nesse processo devemos considerar seus pensamentos, suas ações, suas manifestações e comunicação com outras pessoas. Por isso Freire (1998) afirma que não é o sujeito individualmente que fundamenta o seu pensar, mas é o pensamento coletivo que explica o saber individual. Reconhecer a Educação em Saúde efetivamente como um espaço de construção do saber é condição para a ressignificação da própria educação popular.


Neste sentido, o pensamento de Freire, traz elementos instigantes e desafiadores para a edificação do conhecimento na área da educação de maneira geral, reafirmando essa educação como uma possibilidade para desencadear um processo elaborador do conhecimento, respeitando todas as particularidades envolvidas nesse processo (Scocuglia, 2001).


A educação em saúde de acordo com o modelo tradicional podendo ser chamado também de preventiva, segue os pressupostos da antiga saúde pública. Este modelo evidencia e objetiva a prevenção de enfermidades centrando sua abordagem na mudança individual, seguindo o foco embasado nos princípios da ideologia do individualismo e do behaviorismo (OLIVEIRA apud SOUZA, 2005).

O estudo tomou como base os conceitos freirianos sobre “práticas educativas”, “conscientização” e “transformação”. As práticas educativas na concepção de Freire (2007a) são derivadas da transformação ou reconstrução dos saberes que são repassados a um grupo que não tem o princípio do conhecimento acadêmico-científico, mas que pode contribuir com suas experiências e vivências.

Segundo Freire (1980, p.56), toda prática educativa deve ter como objetivo a conscientização, que só acontecerá quando o sujeito alcançar um posicionamento crítico da sua realidade. Para que isso ocorra, deve-se cada vez mais aprofundar-se em sua realidade vivida, pois o processo de conscientização é determinado pela tríade ação-reflexão-ação.


Neste estudo, a Educação em Saúde foi abordada sob a lógica de proporcionar um caminho integrador do cuidar e constituiu-se em um espaço de reflexão-ação. Nesse sentido, evidenciamos que os saberes técnico-científicos e populares, culturalmente significativos para o exercício democrático são capazes de provocar mudanças individuais suficientes para atuar na família e na comunidade, interferindo no controle e na implementação de políticas públicas, contribuindo para a transformação social (MACHADO et al, 2007).


A Educação em Saúde foi evidenciada como uma estratégia de promoção da saúde, que perpassa por um processo de conscientização individual e coletiva de responsabilidades e de direitos à saúde, capazes de estimular ações que atendam aos princípios do SUS.


Nesse enfoque, se faz necessário elegermos estratégias didáticas que conduzam a uma transformação dos indivíduos socialmente inseridos no mundo, ampliando sua capacidade de compreensão da complexidade dos determinantes de ser saudável (FREIRE, 2007a).


Sobre o alcance dos objetivos em uma prática educativa enfatizamos ainda que se deve considerar que os usuários de saúde não são consumidores ou receptores das orientações e dos grupos educativos, esses devem ser considerados como agentes que participam de um processo educativo, portanto devem ser integrados na atividade.


No contexto da práticas educativas do APDRA de educação popular em saúde, aos pacientes portadores de doenças reumáticas auto-imune, usuários do ambulatório de Reumatologia do HUJM quando realizada de forma dialogada e participativa entre diferentes saberes, com intuito de ajudar  os usuários na compreensão e resolução dos seus problemas e na busca de soluções dos portadores de doenças reumáticas auto-imune, pode constituir um importante instrumento para compartilhadas para melhoria da qualidade de vida dessas pessoas

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Como resultado, esta pesquisa constatou que a APDRA é uma organização da sociedade civil criada a partir dos atendimentos realizados no Ambulatório de Colagenoses do HUJM. A organização dos usuários foi proveniente de algumas deficiências percebidas no atendimento às suas demandas de saúde. Inicialmente, a proposta de criação da associação contemplava apenas a organização de pessoas com Lúpus, pois esses são maioria nos atendimentos realizados no ambulatório. Entretanto, percebeu-se a importância em mobilizar os 403 (quatrocentos e três) usuários acometidos por outras doenças reumáticas auto-imunes e não apenas Lúpus, haja vista que esses também carecem de ações contributivas à saúde.


Para sujeitos desta pesquisa foram selecionados 2 Médicos, 2 Técnicas de Enfermagem, 2 Assistentes Sociais, que atuam no Ambulatório de Reumatologia do HUJM e no APDRA, e 40 usuários (pacientes) que participam das práticas educativas desenvolvidas na unidade hospitalar, dos quais a grande maioria 97% pertence ao sexo feminino, sendo que apenas 3% masculino. A predominância do sexo feminino, talvez venha a ser justificada, devido o Lupus ser uma doença que acomete mais as mulheres. O índice de mulheres acometidas pela doença é muito superior ao número de homens. Cerca de 90% das pessoas com Lúpus são mulheres com idades entre 15 e 40 anos de idade. Por isso, o Lúpus parece ter alguma associação com o estrógeno, hormônio produzido pelas mulheres em sua fase reprodutiva (CRISPIN et al; 2010).


A classificação dos respondentes, de acordo com a idade, revelou que a média de idade da população pesquisada é de 20 a 50 anos 73%. Existindo apenas um pequeno número de entrevistados com idade abaixo de 20 anos 7%, de 50 a 60 anos 13% e acima de 60 anos 7%. Temos então a prevalência de uma população ainda jovem. Observou-se predominância do grupo étnico brancos 50%, negros, 44%, e apenas 6% disseram ser pardos, enquanto indígenas e amarelos nenhum. A classificação da população em relação ao estado civil mostra uma expressiva predominância de casados 33% e solteiros 33%, sobre separados 7% e viúvos 10% e casais vivendo em união estável 7%. Quanto ao local de residência temos que nesse grupo, a grande maioria, 77%, dos pacientes são provenientes da capital, pois apenas 23% declararam morar no interior do estado.


Os dados revelaram que os elementos centrais das práticas educativas em saúde dos profissionais da APDRA tem um conteúdo com sentido positivo na vida dos usuários, na qual as ações educativas em saúde está alicerçada nos cuidados, tratamento, apoio psicológico, orientação dos direitos civis e outros, considerando a participação dos profissionais da saúde e os usuários, respeitando o conhecimento dos portadores de doenças reumáticas auto-imune a fim de desenvolver uma construção coletiva e um aprendizado mútuo.

A educação em saúde torna-se uma "construção compartilhada de conhecimento", a educação parte da experiência e práticas dos sujeitos envolvidos buscando "intervenção nas relações sociais que vão influenciar a qualidade de suas vidas" e que conseqüentemente vão produzir outras representações (CARVALHO & ACIOLI, 2001).


As práticas educativas em saúde realizadas pelos profissionais de saúde da APDRA atendem aos novos indicativos e paradigmas da educação em saúde, as quais são realizadas para um público específico da unidade hospitalar, revelando que os profissionais de saúde não desenvolvem um agir educativo para além das fronteiras institucionais.


A pesquisa indica que práticas educativas encontram-se em total sintonia com as idéias de Paulo Freire, que para esse autor, a educação é comunicação e diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados.


A educação é um ato de conhecimento, que se dar através da relação dialógica entre educador, educando e objeto de conhecimento que são resultados diretos de uma proposta pedagógica que se centraliza-se nas diversas abordagens durante o processo de ensino-aprendizagem (Freire, 1996).


Na concepção dialógica de Freire o podemos perceber que as práticas de educação em saúde desenvolvidas por estes profissionais não fundamentadas apenas em orientações individuais que visem informar sobre os problemas de saúde, mas fundamentadas nas estratégias e metodologias pedagógicas baseadas nas necessidades educativas dos sujeitos envolvidos a fim de realizar um processo participativo entre os indivíduos envolvidos.


Entendeu-se que a APDRA se configura em um grupo de apoio social que possibilita ganhos para os pacientes em termos de assistência e qualidade de vida. Confirmou-se através dos estudos e da pesquisa, que o surgimento dessa associação e de suas ações implicaram na qualidade de vida dos pacientes, fato que, no caso, pôde ser visto como desenvolvimento e descobertas de capacidades, aumento da auto-estima e um papel mais ativo no tratamento e no hospital.


Para Queiroz et al. (2004, p 46) qualidade de vida é uma expressão que vem se tornando corriqueira no dia-a-dia das pessoas, mas que se reveste de grande complexidade, dada à subjetividade que representa para cada pessoa ou grupo social, podendo representar felicidade, harmonia, saúde, prosperidade, morar bem, ganhar salário digno, ter amor e família, poder conciliar lazer e trabalho, ter liberdade de expressão, ter segurança. E pode significar todo esse conjunto de atributos e/ou benefícios.


A expressão Qualidade de Vida Ligada à Saúde (QVLS) é definida por Auquier, Simeoni e Mendizabal (1997) como o valor atribuído à vida, ponderado pelas deteriorações funcionais; as percepções e condições sociais que são induzidas pela doença, agravos, tratamento; e a organização política e econômica do sistema assistencial.


Assim a APDRA tem o resultado das suas ações voltadas para o apoio social, pois possibilita um grau de participação do usuário na instituição, no contexto de pacientes crônicos de uma instituição hospitalar, por meio das reuniões sócio-educativas e de sua luta em busca da concretização e conquista de direitos a tratamentos, orientações, organização política e econômica as pessoas com doenças reumáticas auto-imunes.


O papel da APDRA foi analisado como político/institucional e assistencial/terapêutico. O papel político se confunde com o institucional, já que a participação em eventos políticos relaciona-se diretamente com a participação em reuniões da instituição. O papel assistencial/terapêutico trata do papel de fornecer auxílio aos pacientes do junto com os desdobramentos que essa atuação revela no tratamento e na saúde desses pacientes.


A APDRA é uma organização voluntária, sem fins lucrativos e tem uma importância para os usuários do Ambulatório de Reumatologia, tanto política, quanto assistencial. Em momentos específicos pode defender os interesses do hospital, que são vistos pelos membros da associação como seus próprios interesses. A função assistencial pode-nos remeter a uma ambigüidade no sentido de aumentar a dependência dos usuários com o hospital, mas, ao mesmo tempo, possibilita ganhos para o tratamento e minimiza a difícil condição de vida dessas pessoas.


Embora este não seja um objetivo da associação, os profissionais que atuam no ambulatório de Reumatologia apontaram mudanças no dia a dia do hospital a partir da atuação da APDRA, basicamente em relação ao lugar do paciente dentro do hospital, na forma de como são vistos e na relação com o hospital e com os profissionais. Foi visto que os pacientes, através da atuação na Associação, puderam sair do que seria um lugar passivo, de vítimas, para um lugar mais ativo, de criadores de novos espaços dentro da instituição.


Segundo Freire (1980, p.56), toda prática educativa deve ter como objetivo a conscientização, que só acontecerá quando o sujeito alcançar um posicionamento crítico da sua realidade. Para que isso ocorra, deve-se cada vez mais aprofundar-se em sua realidade vivida, pois o processo de conscientização é determinado pela tríade ação-reflexão-ação.


Ainda que esses efeitos não possam ser estendidos para o conjunto de pacientes do HUJM, as redes de relações e informação que são formadas entre pacientes (e também familiares e amigos) faz reverberar para fora do grupo que atua diretamente na APDRA, ações de autonomia. Por outro lado, muitos não sabem que existe uma associação de pacientes no hospital e acredito que isso se deva em parte, pelo fato da APDRA estar voltada basicamente para ações no campo das doenças reumáticas auto-imunes, o que limita seu campo de ação aos pacientes que apresentam este tipo de doença.


O desenvolvimento de atividades junto à APDRA também foi positiva para os profissionais, pois proporcionou  a percepção da importância da constante busca de informações sobre a realidade dos usuários por parte dos profissionais, visando a melhoria no desenvolvimento de suas intervenções.


Neste sentido, este estudo possibilitou discutir de forma ampla o papel de uma associação de pacientes na organização que presta serviços de saúde a partir de sua caracterização, da sua história e conexões com o Hospital (profissionais, tratamento, reuniões educativas).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Sabemos que a educação popular em saúde tem sido pensada hoje, como um instrumento de reorientação das práticas de saúde. Não se trata apenas de uma nova metodologia na área, pois o que o movimento defende é um novo olhar para as práticas de saúde e as relações construídas entre profissionais e comunidade, e que estas relações possibilitem a abertura de novos canais de comunicação e de construção compartilhada do conhecimento, sempre tendo como foco a autonomia e a construção de processos sociais, o que pode ser observado na criação do APDRA.


Acreditamos que na APDRA a assessoria deve ser focalizada no desenvolvimento de ações que visem a educação política e a educação em saúde dos usuários. Para tanto, propomos a interlocução com unidades básicas de saúde e hospitais públicos ou privados que prestem serviços à essa população O intuito da proposta visa a informação sobre as doenças reumáticas auto-imunes, especialmente o lúpus, bem como a divulgação da associação como um espaço de luta pelos direitos dessas pessoas, tornando possível a participação de outros usuários com vistas ao fortalecimento da organização.


Propomos também a articulação da APDRA com outras organizações da sociedade civil engajadas na defesa da saúde pública. Essa proposta vem ao encontro da necessidade de promover a discussão entre esses grupos com o objetivo de realizar ações em rede em prol da saúde pública. Esperamos que a nossa experiência possa estimular outros profissionais ou estudantes a futuras produções sobre a realidade apresentada por essa população, contemplando discussões aqui apontadas ou percebidas no convívio com esses usuários.

 

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