Educação e Saúde: um olhar para as práticas educativas do ambulatório de climatério do Hospital Universitário Júlio Müller- HUJM - Cuiabá-MT

Educação e Saúde: um olhar para as práticas educativas do ambulatório de climatério do Hospital Universitário Júlio Müller- HUJM - Cuiabá-MT

Por Laila Rosemeire 25/07/2018 - 10:07 hs

Foto: Reprodução

Laila Rosemeire Campos[1]

 

  

RESUMO


Este artigo tem como objetivo investigar o significado das práticas educativas em saúde na qualidade de vida das mulheres na fase do Climatério pacientes do Ambulatório de Climatério do Hospital Universitário Júlio Muller, conhecer quais as mudanças mais significativas em relação à sexualidade que as entrevistadas relatam neste período e averiguar a importância das reuniões e do grupo para estas mulheres. Trata-se de um estudo descritivo de natureza qualitativa, que teve como cenário o Hospital Universitário Júlio Muller - HUJM, tendo como informantes 20 mulheres. Os dados foram coletados utilizando o formulário de entrevista estruturado que posteriormente foi tabulado e analisado. Concluímos que durante o Climatério e Menopausa, podem ocorrer fatores fisiológicos e emocionais que podem influenciar a vida sexual das entrevistadas, mas que as palestras ofertadas pela equipe do ambulatório vem a contribuir para uma melhor superação desta fase através do aprendizado por meio delas e da convivência com as demais participantes e a equipe.

 

Palavras-Chave: Climatério, Menopausa, Sexualidade, Qualidade de Vida.


[1] Autora – Mestre em Ciências da Educação pela Universidad Tecnica de Comercialización y Desarrolo. laila-campos@hotmail.com


EDUCAÇÃO E SAÚDE: UM OLHAR PARA AS PRÁTICAS EDUCATIVAS DO AMBULATÓRIO DE CLIMATÉRIO DO HOSPITAL UNIVERSITÁRIO JÚLIO MÜLLER- HUJM CUIABÁ-MT. [2]

Laila Rosemeire Campos [3]

 

 

ABSTRACT

This article aims to investigate the influence of health educational practices in in the quality of life of women at the stage of Climacteric, patients of the Menopause Clinic at Júlio Muller University Hospital, know which are the most significant changes in relation to sexuality that respondents report in this period and find out the importance of the group meetings for these women. This is a descriptive qualitative study, which took place at the Júlio Muller University Hospital - JMUH, with 20 women. Data were collected using a structured interview form which was then tabulated and analyzed. We conclude that during the Climacteric and Menopause, physiological and emotional factors that can influence the sex life of the interviewees can occur, but that the talks offered by the clinic's staff contribute to better overcome this phase by learning through them and the coexistence with the other participants and staff.


Keywords: Menopause, Climacteric, Sexuality, Quality of Life.

[1] Article extracted from the Master's Dissertation in Educational Sciences at the Technical University of Marketing and Development, Paraguay, 2011.

[1]Author - Master in Educational Sciences by the Technical University of Marketing and Development laila-campos@hotmail.com


INTRODUÇÃO


A educação em saúde está condicionado às ações que são transmitidas aos indivíduos com intuito de elevar a sua qualidade de vida através da mudança de hábitos, atitudes, e comportamentos individuais e em grupos, atrelada a aquisição de novos conhecimentos e adoção de atitudes favoráveis à saúde.


Nesse contexto, emergem práticas educativas, e estas possuem características distintas, arsenal metodológico próprio e intencionalidades diversas. Dentre elas, encontram-se as práticas educativas do Ambulatório de Climatério do HUJM, que possui caráter coletivo, de ação grupal e se realizam a partir do contexto social e da realidade das pacientes que estão no período do Climatério.


As práticas educativas são oferecidas no auditório do hospital uma vez ao mês, na qual são realizadas palestras com temas relacionados à saúde, nutrição, psicologia, climatério, menopausa, qualidade de vida, direitos sociais, dentre outros, transmitindo a estas pacientes informações sobre esse período da vida, buscando motivá-las à mudança de hábito e há uma maior qualidade de vida. Neste sentido passamos a observar as mulheres que participam destas reuniões e ficou nítida grande assiduidade das mulheres em Climatério e Menopausa do ambulatório, além de o quanto elas interagem com a equipe, o/a palestrante e as demais participantes da reunião e de todas as atividades programadas como passeios e caminhadas etc.


Tal fato nos estimulou a querer analisar as práticas educativas de saúde desenvolvidas no ambulatório de Climatério do Hospital Universitário Júlio Muller sob o olhar das mulheres que estão passando por essa fase na vida, conhecer quais as mudanças mais significativas em relação à sexualidade que as entrevistadas relatam neste período e averiguar a importância das reuniões e do grupo para estas mulheres, no intuito de compreender se realmente essas reuniões vem a beneficiar essas mulheres a superarem melhor este período, uma vez que esta fase constitui uma importante etapa no ciclo vital da mulher, sendo uma fase normal do envelhecimento, mas que inclui mudanças fisiológicas que podem afetar a vida bio/psico/social dela e causar mudanças em sua relação com si mesma, família, sociedade e ainda sexualidade.


Assim esta pesquisa se utiliza da observação dos relatos das participantes através das vivências do cotidiano dos sujeitos investigados, na busca pela compreensão dos significados para estas mulheres de sua participação nas ações e práticas educativas do Ambulatório de Climatério.

 

Qualidade de Vida no Universo da Promoção a Saúde

 

Qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximada ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar.


A qualidade de vida é um dos principais objetivos que se tem perseguido nos ensaios clínicos atuais, através de pesquisas de novas metodologias para tratamento e prevenção de doenças, surgindo a necessidade de se padronizar a sua avaliação. Para tanto, a ciência médica precisou definir conceitualmente, o que ela entende por qualidade de vida. Esta definição deveria se aplicar a qualquer pessoa fosse ela fisicamente incapacitada, atleta de elite, operário, escriturário, bailarina, idoso, jovem, entre outros tantos.


Assim, a qualidade de vida foi definida como sensação íntima de conforto, bem-estar ou felicidade no desempenho de funções físicas, intelectuais e psíquicas dentro da realidade da sua família, do seu trabalho e dos valores da comunidade à qual pertence (MIETTINEM, 1987).


O bem-estar e qualidade de vida sempre foram temas discutidos pelo ser humano, mas com o passar do tempo e com as mudanças culturais que envolvem a sociedade, os termos ganharam conotações diferentes. Hoje se sabe que essa qualidade é relativa e depende de pessoa para pessoa.


Existe, no entanto, um senso comum ou uma convergência que leva a esse benefício, independente da cultura, religião ou classe social, há quem diga que algumas questões podem contribuir para a qualidade de vida do indivíduo e uma dessas premissas está ligada ao desenvolvimento da espiritualidade. Quanto mais aprimorada a democracia, mais ampla é a noção de qualidade de vida, o grau de bem-estar da sociedade e de igual acesso a bens materiais e culturais (MATOS, 1999).


No campo da saúde, o discurso da relação entre saúde e qualidade de vida, embora bastante inespecífico e generalizante, existe desde o nascimento da medicina social, nos séculos XVIII e XIX, quando investigações sistemáticas começaram a referendar esta tese e dar subsídios para políticas públicas e movimentos sociais.


Na maioria dos estudos, o termo de referência não é “qualidade de vida”, mas “condições de vida”. O “estilo de vida” e “situação de vida” são termos que compõem parte do campo semântico em que o tema é debatido. A visão da intrínseca relação entre condições e qualidade de vida e saúde aproxima os clássicos da medicina social da discussão que, nos últimos anos, vem se revigorando na área, e tem no conceito de “promoção da saúde” sua estratégia central (Witier, 1997).

 

PRÁTICAS EDUCATIVAS E PROMOÇÃO A SAÚDE

 

A Educação é um conceito que vem sendo desenvolvido e discutido ao longo dos séculos pela sociedade, dessa forma é um conceito difícil de definir, tendo sofrido alterações ao longo dos tempos e de acordo com a Lei nº 9.384 de 20.12.96 – Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional,  que define como “processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações cultura”.


A educação em saúde trata-se de um recurso por meio do qual o conhecimento cientificamente produzido no campo da saúde, intermediado pelos profissionais de saúde, atinge a vida cotidiana das pessoas, uma vez que a compreensão dos condicionantes do processo saúde-doença oferece subsídios para a adoção de novos hábitos e condutas de saúde.


Em nosso país as práticas educativas e concepções de educação em saúde são datadas do final do século XIX e início do século XX. Elas ocorreram devido às necessidades de domínio sobre epidemias de febre amarela, tuberculose, varíola, peste, entre outras, nos grandes centros urbanos, visto que estas geravam transtornos para a economia, fazendo com que se desenvolvessem as primeiras práticas sistemáticas de educação em saúde (Smeke & Oliveira, 2001).


Estas práticas eram respaldadas pelo modelo biologicista, que limita o processo de saúde-doença a uma dimensão individual, sem responsabilizar outras determinações como condições de trabalho e vida, ou ainda as políticas publicas (ALVES, 2005).


Na década de 40 algumas mudanças foram observadas na educação em saúde e os sujeitos que até o momento eram considerados culpados individualmente pelos problemas de saúde que os afetavam, foram lhes dada certa importância no sentido de envolvê-los no processo educativo (ALVES, 2005).


A partir da década de 1960, com advento da medicina comunitária, ocorre um apelo à participação da comunidade para a solução dos problemas de saúde nela vivenciados. Entretanto, por trás deste apelo de participação comunitária parece camuflar-se o mesmo discurso da culpabilidade dos sujeitos, com a ressalva de que esta passou da individualidade para a coletividade (ALVES, 2005).


Na década de 1970, destaca-se o movimento da Educação Popular em Saúde, Vasconcelos (2001, p 32):

 

O movimento da Educação Popular em Saúde tem priorizado a relação educativa com a população, rompendo com a verticalidade da relação profissional-usuário. Valorizam-se as trocas interpessoais, as iniciativas da população e usuários e, pelo diálogo, buscam-se a explicitação e compreensão do saber popular. Esta metodologia contrapõe-se à passividade usual das práticas educativas tradicionais.

 

Em relação ao usuário, Vasconcelos (2001, p. 33), diz que :


É reconhecido como sujeito portador de um saber sobre o processo saúde-doença-cuidado, capaz de estabelecer uma interlocução dialógica com o serviço de saúde e de desenvolver uma análise crítica sobre a realidade e o aperfeiçoamento das estratégias de luta e enfrentamento

 

A metodologia foi assimilada pelo movimento dos profissionais constituindo seu elemento estruturante fundamental, vislumbrando as experiências de educação popular como forma de superação do fosso cultural entre os serviços de saúde e a população assistida. O campo da educação em saúde tem sido, desde a década de 1970, profundamente repensado e verifica-se um relativo distanciamento das ações impositivas características do discurso higienista. O modelo tradicional, historicamente hegemônico, focalizando a doença e a intervenção curativa e fundamentado no referencial biologicista do processo saúde-doença, preconiza que a prevenção das doenças prima pela mudança de atitudes e comportamentos individuais (Smeke & Oliveira, 2001; Chiesa & Veríssimo, 2003).


A principal crítica a este modelo de educação, entretanto, tem sido referente a não consideração dos determinantes psicossociais e culturais dos comportamentos de saúde. Ao tomar os usuários como objeto das práticas educativas e carentes de um saber sobre a saúde, perde-se de vista que os comportamentos são orientados por crenças, valores, representações sobre o processo saúde-doença. É necessário conhecer os indivíduos para os quais se destinam as ações de saúde, incluindo suas crenças, hábitos e papéis, e as condições objetivas em que vivem.


Neste sentido, Briceño-Léon apud Alves (2005, p. 37), consideram que somente com a participação real da comunidade é possível garantir sustentabilidade e efetividade das ações de saúde. 


Nesse sentido, L’Abbate (1994) e Smeke & Oliveira (2001) concordam quanto à compreensão de que todo profissional de saúde é um educador em saúde em potencial, sendo condição essencial a sua prática seu próprio reconhecimento enquanto sujeito do processo educativo, bem como o reconhecimento dos usuários enquanto sujeitos em busca de autonomia


Dessa forma o modelo dialógico apresenta uma proposta que favorece o reconhecimento dos usuários enquanto sujeitos portadores de saberes sobre o processo saúde-doença-cuidado e de condições concretas de vida. Nesta mesma direção, este modelo contribui para uma apreensão mais abrangente das necessidades de saúde dos sujeitos e na humanização da ação educativa, tornando-as mais sensíveis a seus destinatários.


Além do modelo dialógico existem vários outros na educação em saúde, como o “modelo preventivo”, também chamado de educação em saúde tradicional, que é baseado nos princípios da “velha” saúde pública. Fundamentalmente informado pelas tradições da biomedicina, o modelo preventivo de educação em saúde objetiva prevenir doenças. Como enfatizam alguns autores, a prevenção de doenças é definida, principalmente, segundo as postulações de dois paradigmas: o behaviorismo e o individualismo (RODMELL, 1986).


A abordagem preventiva da educação em saúde trabalha com a idéia de que os modos de vida dos indivíduos - regime alimentar pobre, falta de exercícios, tabagismo etc.- são as principais causas da falta de saúde. Nesse sentido, hábitos insalubres são tidos como conseqüência de decisões individuais equivocadas. Essa ênfase no “individual” acaba produzindo uma representação de “falta de saúde” como uma falha moral da pessoa e um discurso que culpa a vítima pelo seu próprio infortúnio (CRAWFORD, 1977).


O modelo preventivo da educação em saúde tem como pressuposto a idéia de que os profissionais da saúde sabem o que se constitui em “estilo de vida saudável” e de que a adoção desse modo de viver a vida é uma questão de escolha pessoal. O tom individualista de tal discurso é altamente problemático e tem sido alvo de críticas.


A abordagem radical da educação em saúde tem a intenção de promover o envolvimento dos indivíduos nas decisões relacionadas à sua própria saúde e naquelas concernentes aos grupos sociais aos quais eles pertencem. Supõe-se que indivíduos conscientes sejam capazes de se responsabilizar pela sua própria saúde, não apenas no sentido da sua capacidade para tomar decisões responsáveis quanto à saúde pessoal, mas, também, em relação à sua competência para articular intervenções no ambiente que resultem na manutenção da sua saúde. É importante destacar que, na abordagem radical, o empowerment de indivíduos e comunidades vai além da promoção da conscientização, incluindo, também, o fornecimento de informações relevantes ao campo da saúde e habilidades vitais (TONES, TILFORD,1994).

Assim o objetivo da prevenção de doenças deve ser alcançado por meio da persuasão dos indivíduos, para que esses adotem modos de vida saudáveis ou comportamentos considerados pelos profissionais do campo da biomedicina como compatíveis com a saúde (PELICIONI e TORRES, 1999).

 

Entendemos que educar para a saúde implica ir além da assistência curativa, significa dar prioridade a intervenções preventivas e promocionais, favorecendo a promoção desta e apesar da aceitação da idéia de que saúde é mais do que apenas ausência de doenças, é um estado em que trás a qualidade de vida em todos os sentidos.

 

CLIMATÉRIO: Significado e Manifestações Clínicas

 

Na literatura médica, o termo Climatério designa, basicamente, o ciclo da mulher caracterizado pelas mudanças hormonais (diminuição de estrogênio e progesterona), alterações vaginais e cessação da menstruação (menopausa). O Climatério é uma fase que não se escolhe passar, sendo esta uma passagem natural da vida na mulher. Este período caracteriza-se pela queda da produção de estrogênio pelo ovário, ocorrendo uma diminuição dos folículos ovarianos (Neco, 1994),


O Climatério é um período que constitui importante transição existencial no ciclo vital da mulher. Percebe-se que numa cultura na qual a juventude e a estética do corpo, são conceitos valorizados, o processo de envelhecer irá envolver a sensação de perda, da capacidade de procriação, do vigor físico, do medo do declínio e da perda da sexualidade. Partindo desse pressuposto, poderão surgir neste período, apreensões, ansiedade e depressão (Maldonado e Canella,1988),.

Para Trien (1994, p. 45), algumas mulheres sofrem uma depressão emocional temporária durante este período de transição, geralmente sentem-se melancólicas ou mal-humoradas, e em alguns casos perdem o entusiasmo.

Durante este período, os sintomas que acompanham as queixas das mulheres climatéricas podem ser divididos a curto e a longo prazo, com efeito nos vasos sangüíneos, pele, órgãos reprodutores, doenças cardiovasculares e osteoporose (LANDAU, 1998).


A perda da massa óssea ocorre de forma lenta, progressiva e silenciosa, com ausência de sintomas e o seu diagnóstico é feito somente quando ocorrem fraturas, e essa perda acentua-se a partir dos 40 anos de idade (WEHBA 1994).

Outro ponto importante durante essa fase é o risco de doenças do coração, infarte e hipertensão, pois a composição da gordura no sangue facilita o endurecimento das artérias, (arteriosclerose), caracterizando-se como uma das principais causas da mortalidade entre mulheres no climatério (LANDAU,  1994).

Nesta fase freqüentemente ocorrem as ondas de calor, denominadas também de fogachos. Estas ondas são sintomas bem definidos, principalmente quando ocorrem à noite, pois a mulher acaba despertando muitas vezes durante este período, interferindo na qualidade do sono, e quando cessa essa onda de calor a mulher pode ter suores e/ou calafrios. Estes calores perduram por 1 a 2 anos e desaparecem gradativamente, embora algumas mulheres relatem duração superior a 5 anos (LANDAU, 1994, FEBRASGO, 1995).


O fogacho e os suores noturnos, poderão acarretar sintomas emocionais, justamente pelo fato do sono ser interrompido várias vezes durante a noite, ocorre uma probabilidade maior de a mulher ter insônia e com isso sentir-se irritada, cansada e deprimida durante o dia. A dilatação e contração dos vasos sangüíneos por ocasião de cada fogacho contribuem para as dores de cabeça, palpitações e irritabilidade (TRIEN, 1994).


Praticamente todos os trabalhos a respeito do climatério (inclusive os mais recentes) apontam mudanças psicológicas ocorrendo nas mulheres que atravessam este período, em graus variáveis e em maior ou menor porcentagem. Conforme Masters e Johnson (1979, p. 42), tais mudanças mais os sintomas e sinais que as acompanham em 5 grupos principais:


l) É muito descrito o surgimento de um aumento da irritabilidade, da agressividade, do “nervosismo” com um aumento da tensão interna e inquietude, durante o climatério;


II) Distúrbios do sono são também muito freqüentes: demora para adormecer, despertar precoce, insônia, inquietude durante o repouso noturno, sono com interrupções freqüentes;


III) Depressão. Sabe-se que a incidência de depressão é maior nas mulheres que nos homens e aumenta com a idade;


IV) Queda no rendimento mental: não se sabe se direta ou indiretamente causada pelo climatério, todas as pesquisa de sintomas que causam impacto na qualidade de vida das mulheres neste período mostram a impressão subjetiva de queda no rendimento mental, fadiga, perda de memória e dificuldade de concentração;


V) Alterações na sexualidade. Os estudos mostram, quase sempre, uma queda na atividade e interesse sexual, em ambos os sexos, com o passar da idade. Na maior parte das pesquisas, a freqüência coital das mulheres cai, durante o climatério.


Todos esses motivos fazem com que algumas mulheres diminuam o interesse pela atividade sexual com o seu parceiro, e este muitas vezes não compreende essa fase delicada da vida da parceira, por falta de amor, aproximação, cumplicidade e até de informação acerca da menopausa, criando um atrito no relacionamento e até um rompimento.


Conforme Fernandez (2005, p. 32) quando comparada com uma mulher na idade reprodutiva, a mulher climatérica tem menos pensamentos e fantasias sexuais e menor lubrificação durante o ato sexual.


Sendo inerente à condição humana, a sexualidade transforma-se, conforma-se ou deforma-se ao longo da vida, tendo em vista as experiências vivenciadas no âmbito individual e coletivo. Assim, a percepção corporal, a forma de ser para e com o outro e de ser no mundo estão estreitamente ligadas na formação da sexualidade humana, dessa forma o conhecimento das necessidades sexuais e dificuldades femininas no climatério é fundamental para a promoção da qualidade de vida da mulher no seu processo de envelhecimento. É importante que as mulheres climatéricas, assim como seus parceiros, sejam informados sobre as mudanças orgânicas e de comportamento a que estão sujeitos durante o envelhecimento, o que certamente facilitará a identificação de eventuais dificuldades na esfera sexual e as intervenções terapêuticas mais indicadas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

As participantes da pesquisa são mulheres usuárias do Ambulatório de Climatério do HUJM, com idades entre 40 e 60 anos. Destas, 20% apresentaram idade entre 40 a 49 anos, 40% entre 50 a 59 anos e 40% apresentaram idade a partir de 60 anos, sendo que 80% tem filhos. Quanto à escolaridade, 5% tem ensino superior, 5% ensino médio completo, 10% não concluíram o ensino médio, 15% ensino fundamental completo, 55% interromperam os estudos antes de concluir o ensino fundamental e 10% não tiveram nenhum tipo de escolaridade. No que refere ao estado civil 45% são casadas, 25% vivem em união estável,10% divorciadas, 15% viúvas e 5% solteira. Quanto à renda familiar 10% até um salário mínimo, 25%de 1 a 2 salários mínimos, 35% de 2 a 3 salários mínimos, 20% de 3 a 4 salários mínimos, 10% acima de 5 salários mínimos. No que se refere a ocupação 35%) são donas de casa, 15% doméstica, 5% babá, 5% comerciante, 10% agricultoras, 10%costureira, 5% cabeleireira e 15% estão aposentadas

Os resultados apontaram que 70% das mulheres que consideraram o Climatério como um período natural da vida, nos quais todos os fenômenos involutivos do organismo, na maioria das vezes, são considerados como fisiológicos e, por isso, normais. 70% consideraram o Climatério uma fase boa, e identificaram algumas limitações para se ajustarem às mudanças corporais.


Segundo Silva et al, (2003, p.28), o Climatério é definido como um período de transição entre os anos reprodutivos e não-reprodutivos da mulher, que acontece na meia-idade. É caracterizado por alterações metabólicas e hormonais, que, muitas vezes, podem trazer mudanças envolvendo o contexto psicossocial.

 O Climatério e a menopausa influenciam em diversas formas a vida da mulher, sendo assim, o grande problema na mulher madura é a sua reação frente às modificações do seu corpo, bem como aos preconceitos em relação ao sexo na maturidade e ao interesse do seu parceiro.


Entre as queixas, a maioria das participantes reconhece a experiência do calor (fogachos), considerando como um desconforto difícil de se conviver, trazendo vários constrangimentos na sua convivência com as pessoas , outros sintomas como a insônia, irritabilidade, fadiga, desânimo, depressão, dores no corpo e dor de cabeça (enxaqueca),


Halbe (2000, p. 15), diz que, a síndrome do Climatério, ou moléstia menopausal, ou síndrome menopausal compreende o conjunto de sintomas e sinais que aparecem no climatério, prejudicando o bem-estar da mulher


Considerando que o Climatério trouxe mudanças na vida dessas mulheres, foi solicitado quais as principais mudanças que o Climatério trouxe para a sua vida? 65% das mulheres responderam ter mudança no padrão sexual, e 55% disseram ter vida sexual ativa, e as que declaram não ter atribuíram este fato a falta de desejo ou ainda ausência de um parceiro, seja devido a viuvez ou a separação e ainda, não tem outra pessoa por não sentir necessidade ou porque afirmaram ser difícil encontrar novo parceiro, devido a fatores emocionais e biológicos. Nesta fase de transição da mulher pode trazer mudanças positivas ou não no seu relacionamento sexual com seu parceiro, considerando que o campo do desejo sexual está vinculada a aspectos emocionais, psicológicos e biológicos, aspectos que foram percebidos durante as entrevistas. Ficou comprovado, por este grupo de mulheres que a alteração na atividade sexual foram a diminuição da libido, diminuição do prazer, dificuldade de penetração, além de aspectos emocionais e psicológicos.


Todos esses fatores fazem com que algumas mulheres diminuam o interesse pela atividade sexual com o seu parceiro, e este muitas vezes não compreende essa fase delicada da vida da parceira, por falta de amor, aproximação, cumplicidade e até de informação acerca do climatério/menopausa, criando um atrito no relacionamento e até um rompimento. 35%  relataram a menopausa de forma positiva, sentiram-se mais maduras, mais livres para aproveitarem a sua sexualidade, o fim das menstruações e do risco de engravidar trouxe uma maior liberdade sexual.


Quanto as práticas educativas em saúde 75% das mulheres que consideram boas as práticas educativas realizadas pelo ambulatório de Climatério, e consideram um significado positivo para a sua qualidade de vida. 90% consideram importantes e favorecem maior conhecimento acerca do momento e promoção a saúde, e que além do conhecimento, encontram-se inúmeras formas de manifestações de entusiasmo sobre os encontros, vivências, conquistas de novas amizades, os diálogos que desencadeiam reflexões e aprendizagens. 85% responderam que houve mudanças na sua vida após a participação na práticas educativas do ambulatório de Climatério do HUJM


A principal atitude do profissional de saúde diante da mulher climatérica deve ser em relação à promoção e à prevenção de sofrimentos, mediante esclarecimentos, assim como compartilhar momentos de escuta terapêutica que possa ajudar no desenvolvimento de autoconhecimento, tendo como foco a preparação dessa mulher para enfrentar e superar as modificações e transtornos que possam ocorrer nessa nova etapa de vida (Silva et al, 2003).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O desenvolvimento desta pesquisa possibilitou a observação de que o Climatério é um período importante da vida feminina, tanto quanto as demais fases, porém observou-se que é um período vivido de modo diferente entre as mulheres, entendido, algumas vezes, de forma positiva e outras vezes de forma negativa, onde o significado de vivenciar um fenômeno estão alicerçadas em seus modos de viver, em suas heranças culturais, experiências, vivências que são diferentes em cada ser humano e nas relações que possui. Além disso, a vivência do Climatério não pode ser reduzida a fatores biológicos, quando se citam sinais, sintomas, meios de diagnóstico e tratamento, pois viver o Climatério significa relacionar o fator biológico com outros aspectos, como a vida social, o trabalho, a família, a sexualidade, a cultura e outros.


Cabe, aqui, a sugestão de que os múltiplos fatores que permeiam a vida das mulheres possam ser observados quando se presta assistência a elas. Ainda, sugere-se que as mulheres possam ser assistidas em grupo, para que, desta forma, por meio da socialização de saberes e com apoio da equipe de saúde, tenham a possibilidade de viver o Climatério de uma forma mais natural e tranqüila. Vale ponderar a necessidade de buscar aprimorar cada vez mais a prática assistencial da equipe, para que seja possível implementar medidas estratégicas de atenção à mulher no climatério  atentando para as suas necessidades e encaminhando-as para uma vida ativa, saudável, proveitosa, com bem-estar e qualidade também neste período.


De acordo com o Ministério da Saúde (2004), um dos objetivos das Diretrizes da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, são a elaboração, a execução e a avaliação das políticas de saúde da mulher, norteando-se na perspectiva de gênero, de raça e de etnia, e a ampliação do enfoque, rompendo-se as fronteiras da saúde sexual e da reprodutiva, para alcançar todos os aspectos da saúde da mulher (BRASIL, 2004).


Portanto acreditamos que os profissionais de saúde assumem papel primordial na orientação das mulheres sobre o Climatério na perspectiva de uma melhor qualidade de vida na meia idade, já que a interação paciente/profissional da saúde e a influencia dos meios de comunicação de massa assumem relevância no que se refere à garantia da informação correta sobre o Climatério e, conseqüentemente, à motivação das mulheres para buscar assistência à saúde nessa fase da vida. Recomendamos que o trabalho em parceria com os profissionais de Serviço social foi muito produtivo, possibilitando a experiência de trabalho em equipe interdisciplinar, através da interlocução entre áreas de conhecimento diferentes, na busca de demonstrar para essas mulheres a possibilidade de viver o Climatério prazerosamente pois para algumas mulheres a vivência do Climatério se torna mais fácil quando se tem conhecimento melhor acerca deste período e as palestras ministradas vem a contribuir para isso.

 

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