Entre o trabalho e o estudo: estudo sobre a evasão escolar no CEJA Paulo Freire, Nova Mutum/MT/Brasil

Por Sidnei Adriano 10/09/2018 - 10:00 hs

Foto: Reprodução

 

Sidnei Adriano Coradini[1]

  

RESUMO

  

Este artigo tem por objetivo fazer uma reflexão acerca da evasão escolar no Centro Educação de Jovens e Adultos Paulo Freire, localizado no município de Nova Mutum, MT, bem como identificar e analisar as principais causas da evasão escolar e identificar ações que venham a minimizar esse processo na referida modalidade de ensino, em busca da permanência do aluno no CEJA. O artigo é resultado do trabalho de conclusão de curso à nível de mestrado em educação. A metodologia utilizada foi de caráter qualitativo e quantitativo, utilizando como instrumento de pesquisa a observação e a aplicação do questionário aos 40 alunos do 1º e 2º segmento do Ensino Médio, do período noturno do CEJA Paulo Freire, buscado analisar, primeiramente, o perfil dos alunos, e posteriormente as causas e medidas preventivas da evasão escolar no CEJA Paulo Freire, tendo como referência o ano de 2013. Os resultados apontaram que a evasão escolar neste centro de estudo está centrada em duas variáveis principais, a primeira na dificuldade que os alunos encontram em conciliar o trabalho com estudo, em virtude do cansaço e desânimo, e a segunda relacionada a migração da população para outras localidades, em busca de melhores oportunidades de trabalho, emprego, e melhor remuneração salarial, em relação aquelas presentes em seu município.

 

Palavras-Chave: CEJA, Evasão Escolar, Trabalho, Migração, Aluno.

  

[1] Artigo extraído da Dissertação em Ciências da Educação na Universidad Gran Assunción, Paraguay, 2014.

[1] Author - Master of Education Sciences by  Universidad Gran Assunción, sidneicoradini@hotmail.com


BETWEEN WORK AND STUDY: STUDY ON SCHOOL EVASION IN CEJA PAULO FREIRE, NOVA MUTUM / MT / BRAZIL[2] 

  

Sidnei Adriano Coradini [3]

  

ABSTRACT

This article aims at reflecting on school dropouts at the Paulo Freire Youth and Adult Education Center, located in the municipality of Nova Mutum, MT, as well as identifying and analyzing the main causes of school dropout and identifying actions that will minimize this process in the said modality of education, in search of the permanence of the student in the CEJA. The article is the result of the completion of a final paper at the master's level in education. The methodology used was qualitative and quantitative, using as a research instrument the observation and the application of a questionnaire to the 40 students of the first and second segment of high school CEJA Paulo Freire, seeking to analyze, first, the profile of the students, and later the causes and  school dropout preventive measures in the CEJA Paulo Freire, with reference to the year 2013. The results pointed out that school dropout in this center of study is centered on two main variables, the first on the difficulty that students find to work reconcile work with study, due to fatigue and discouragement, and the second,related to the migration of the population to other localities, in search of better opportunities of work, employment, and better salary remuneration, in relation to those present in their municipality.

Key Words:  CEJA, School Evasion, Labor, Migration, Student.


[1] Article extracted from the Dissertation on Education Sciences in Universidad Gran Assunción, Paraguay, 2014.  

[1] Autor – PhD in Educational Sciences by  Universidad Gran Assunción, sidneicoradini@hotmail.com


INTRODUÇÃO

 

A educação escolar é um direito de todos os cidadãos brasileiros, inserido dentre os direitos fundamentais do homem em nossa Constituição, sendo dever do estado a tomada de medidas preventivas de políticas públicas que priorize a qualidade do ensino na modalidade da EJA em sua totalidade e de igual forma a todos, de modo a suprir diversas expectativas. para a permanência do aluno na escola, evitando o aumento da taxa de evasão escolar no país.

As causas da evasão escolar são variadas. Condições socioeconômicas, culturais, geográficas ou mesmo questões referentes aos encaminhamentos didático-pedagógicos e a baixa qualidade do ensino das escolas, que podem ser apontadas como causas possíveis para a evasão escolar no Brasil.

Diante do exposto surge a necessidade de identificar as principais causas da evasão escolar dos alunos do 1° e 2º segmento do Ensino Médio, do período noturno, do Centro Educacional de Jovens e Adultos - CEJA Paulo Freie, situado no município de Nova Mutum, no estado de Mato Grosso.

O presente artigo tem como objetivo geral fazer uma reflexão acerca da evasão escolar no Centro Educação de Jovens e Adultos Paulo Freire, bem como identificar e analisar as principais causas da evasão escolar e identificar ações que venham a minimizar esse processo na referida modalidade de ensino, em busca da permanência do aluno no CEJA. O artigo é resultado do trabalho de conclusão de curso à nível de mestrado em educação.

A preocupação com a evasão escolar nesta unidade de ensino justifica-se, pela nossa inquietação como professore do CEJA, por quaisquer que sejam os motivos, que passa pelos direitos do cidadão ao acesso a educação, ou pela perda de oportunidade de adquirir conhecimento e qualificação na busca de melhores condições e oportunidades de trabalho,em busca da cidadania.

 

Bases Legais DA Educação de jovens e adultos – EJA

 

A Educação de Jovens e Adultos implantada nos sistemas educacionais no Brasil, em grande parte advém da educação não formal, ligada aos movimentos sociais, em principio, mais ligada às perspectivas emancipatórias, tanto no principio filosófico quanto na sua estruturação.

A EJA constitui um segmento importante no processo educativo, reconhecida e assegurada pelo Governo Federal através de políticas de educação de jovens e adultos. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9.394/96) aborda a EJA no Título V, capítulo II como parte da educação básica, superando sua dimensão de ensino supletivo e regulamentando sua oferta a todos aqueles que não tiveram acesso ou não concluíram o ensino fundamental e médio.

A Lei de Diretrizes Básicas – LDB (1996, p,19), no seu artigo 37, parágrafo 1º e 2º, determina que a educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no Ensino Fundamental e Médio na idade própria:

 

“Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do aluno, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. O Poder Público viabilizará e estimulará o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si.

 

A Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou o parecer CNE/CEB nº 11/2000 que trata das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, decorrendo de sua aprovação a Resolução nº 1/CNE/CEB/2000, estabelece:

“Como modalidade destas etapas da Educação Básica, a identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de equidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio...”

 

A Resolução nº 1/2000 estabelece em seus artigos 3º e 4º que as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental e Médio, estabelecidas pelas resoluções números 2 e 3, respectivamente, aprovadas pelo CNE/CEB em 1998, se estendem para a modalidade Educação de Jovens e Adultos, configurando assim a base nacional do currículo também para essa modalidade, desde que adaptadas às características dos alunos, nos termos preceituados pela LDBEN. Dessa forma, a EJA requer modelo pedagógico próprio, com adequação de carga horária e desenho de atendimento, currículo contextualizado, emprego de metodologias de ensino adequadas e formação específica de educadores para atuarem na educação de jovens e adultos.

A modalidade do EJA, apresenta uma identidade que a diferencia da escolarização regular. Neste contexto pode-se considerar que e essa diferenciação não é apenas quanto à especificidade etária, mas, primordialmente, a uma questão de especificidade sócio-histórico-cultural (FERRARI, 2011).

Os alunos do EJA são vistos como uma massa de alunos sem identidade, qualificados sob denominações diferenciadas que se relacionam com o “fracasso escolar”, são vistos como repetentes, evadidos, defasados, aceleráveis, deixando de fora dimensões da condição humana desses sujeitos (ANJOS, 2011; ANDRADE, 2011).

Conforme coloca Ferrari (2011, p. 1):

 

A maior demanda de jovens pelos cursos de EJA trás, como conseqüência, a dificuldade de o professor atender num mesmo espaço e tempo diferentes níveis de conhecimento e ritmos de aprendizagens. Em geral, as falas dos professores apontam para aceitação do aluno adulto, reconhecendo e valorizando o esforço diário para permanecer no curso, o esforço para aprender, para responder às tarefas e a manutenção da relação hierárquica professor x aluno, no respeito com que o adulto trata o mestre.

 

Brasil (2006, p. 19), considera que:

 

Uma das principais características do aluno EJA é sua baixa auto-estima, reforçada pelas situações de fracasso escolar, ou seja, a sua eventual passagem pela escola muitas vezes marcada pela exclusão e/ou pelo insucesso escolar. Já que seu desempenho pedagógico anterior foi comprometido, esse aluno volta à sala de aula revelando uma auto-imagem fragilizada, expressando sentimentos de insegurança e de desvalorização pessoal frente aos novos desafios que se impõem

 

Andrade (2011, p.2), diante das características dos alunos do EJA, argumenta que “É preciso adotar estratégias pedagógicas e metodologias orientadas para a otimização da formação específica de professores e gestores responsáveis por esse modo de fazer educação”.

A Educação de Jovens e Adultos é composta de pessoas que possuem uma rica experiência de vida, tanto para o lado positivo, quanto para o negativo, sendo que os dois lados acrescentam ao ambiente escolar o que elas nunca deveriam ter feito ou o que fizeram de melhor, compartilhando suas experiências (Magalhães, 2013).

 

EVASÃO ESCOLAR E EJA

 

A evasão escolar não é fato recente, constitui-se em um fenômeno que, apesar dos investimentos nas políticas públicas e do considerável número de programas que visam ao aumento da oferta de vagas nos vários níveis da educação, não se restringe a algumas instituições escolares, trata-se de um problema que afeta tanto a rede privada como a rede pública de ensino no Brasil.

Conforme Oliveira (2012, p.05 apud Campos 2003), os motivos para o abandono escolar podem ser ilustrados a partir do momento em que o aluno deixa a escola para trabalhar; quando as condições de acesso e segurança são precárias; os horários são incompatíveis com as responsabilidades que se viram obrigados a assumir; evadem por motivo de vaga, de falta de professor, da falta de material didático; e também abandonam a escola por considerarem que a formação que recebem não se dá de forma significativa para eles.

As causas da evasão escolar é portanto composta de vários fatores que interagem e se conflitam de ordem política, econômica, cultural e de caráter social. Dessa maneira, o abandono escolar não pode ser compreendido, analisado de forma isolada, deve-se levar em consideração todos esses fatores, e na sua influência na decisão do aluno em abandonar a escola. Alguns autores consideram que o abandono escolar por tempo determinado ou não, também tem relação com a dificuldade encontrada pela escola em compreender o aluno em sua totalidade, sabendo-se que cada um possui representações e necessidades diferenciadas.

Pesquisas e os estudos que analisam a evasão escolar apontam para duas diferentes abordagens teóricas, a primeira, Os fatores externos são o trabalho, as desigualdades sociais, a relação familiar e as drogas. A segunda, os fatores internos mais comuns estão assentados na própria escola, na linguagem e no professor. No caso da EJA, considera que a evasão escolar é facilmente influenciada por fatores externos como a necessidade de trabalhar, e internos pela falta de interesse existente nos alunos. Há uma direta relação entre o trabalho e a educação, e a motivação.

Sobre a relação trabalho e educação, Haddad (2000, p. 15), considera que:

 

O conjunto das pesquisas que concentram suas discussões na relação escola/trabalho sob a ótica dos alunos revela muitas contradições sobre o papel da educação no mundo do trabalho. Este fato nos parece indicar a necessidade de aprofundamento maior dos princípios que norteiam ambas as práticas sociais a educação e o trabalho, a fim de compreender a intersecção necessária de ambas nesta modalidade de ensino

 

Neste artigo, que trata da relação do trabalho com a evasão escolar no CEJA, o trabalho é visto como a atividade (ocupação profissional) desenvolvida por um indivíduo em uma empresa ou instituição, onde o seu trabalho (físico o mental) é devidamente remunerado.

Pensar a educação de jovens e adultos significa, sobretudo, falar de jovens e adultos, trabalhadores-alunos, que formam e são formados ao longo da história, no seio das relações sociais de produção, marcadas pela exclusão e marginalização da maioria da população (Frigotto, 2010).

Nesse sentido Azevedo (2013, p.05), considera que o problema da evasão escolar e da repetência no país tem sido um dos maiores desafios enfrentados pelas redes do ensino público, pois as causas e conseqüências estão ligadas a muitos fatores como social, cultural, político e principalmente econômico.

Oliveira (2012, p.14) corrobora, quando diz que:

 

[...] a evasão escolar é, indubitavelmente, uma das faces da exclusão social também no que diz respeito à EJA, já que os estudantes matriculados nesta modalidade de ensino se vêem excluídos da e pela sociedade quando deveriam sentir-se parte e partícipes da mesma e acabam por serem castigados ao não alcançarem, por motivos diversos e não alheios às instituições de ensino, a educação chamada formal.

 

Várias são as causas da evasão escolar, que historicamente permeia as discussões, as reflexões e os debates no âmbito da educação, pautando no dever da família, da escola e do Estado para a permanência do aluno na escola, como estabelece a LDB, Art. 2º: “a educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

 

METODOLOGIA

 

O presente estudo se caracteriza como pesquisa quantitativa e qualitativa acerca da percepção dos alunos do Ensino Médio do CEJA Paulo Freire, localizo no município de Nova Mutum/MT, tendo como foco principal o trabalho e a evasão escolar.

Para a realização desta pesquisa, foram seguidos alguns procedimentos de coleta de dados, tais como levantamento bibliográfico, aplicação do questionário e observação. Para o embasamento teórico, foi selecionado, livros, textos e dissertações de autores que tratam das questões referentes a educação e principalmente em relação a EJA, permitindo selecionar noções conceituais e teóricas que proporcionem uma visão mais apurada sobre aspectos relevantes da evasão escolar e o trabalho.

Do universo de 740 alunos matriculados, no ano de 2013, foram selecionados como sujeitos desta pesquisa, 40 alunos que estão cursando o 1º e 2º segmento e Ensino Médio, do período noturno. O questionário foi composto de 16 (dezesseis) questões fechadas objetivas,aplicado em 3 (três) momentos para uma melhor interpretação dos resultados e dando veracidade aos objetivos traçados na pesquisa.

Os dados foram analisados estatisticamente no programa Microsoft Office Excel 2010, no qual foi gerado dados e gráficos, que foram de fundamental importância para a caracterização dos sujeitos da pesquisa e o alcance dos objetivos e hipóteses e variáveis  propostas nesta investigação

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

Nesta pesquisa foram levantadas algumas causas e fatores que contribuem direta e indiretamente para a evasão escolar na CEJA Paulo Freire, e identificadas algumas ações e medidas que possam amenizar o abandono escolar nessa instituição de ensino. No primeiro momento da investigação obtemos resultados da caracterização do perfil sujeitos desta investigação.


Os resultados apontam que existe uma interferência considerável e consistente dos aspectos socioeconômico dos alunos do CEJA Paulo Freire. Do total de 40 (quarenta) alunos entrevistados 60% são do sexo masculino e 40 % do sexo feminino. Esses dados diferem da perspectiva nacional do ultimo Censo Demográfico do IBGE em 2010, que revela que o perfil mais comum na modalidade de EJA no país é a predominância de mulheres (IBGE, 2010)


Em relação a faixa etária, observamos que a grande maioria estão na faixa de 15 a 20 anos (27%), de 20 a 25 (30%) e 25 a 30 anos (23%), considerados um publico relativamente jovem em comparado com o menor percentual (10%) de alunos na faixa de 30 a 40 anos e acima de 40 anos (10%).

No questionamento sobre o local de nascimento, 17% dos alunos afirmaram ter nascido no município de Nova Mutum, 56% dos alunos responderam ter nascidos em outras cidades do estado de MT, e 27% dos alunos afirmaram ter nascido em outros estados do Brasil. Sobre o tempo de moradia no município de Nova Mutum, 10% dos alunos de até 2 anos, 20% de 2 a 5 anos, 20% de 5 a 10 anos, 27% de 10 a 15 anos, e 23% dos alunos acima de 15 anos de moradia no município. Os dados acima apresentados reforçam o processo de migração no município, de uma maneira geral, demonstram que os alunos tem pouco tempo de residência no município.


Quanto ao estado civil, 30% são solteiros, 40 % casados, 10 % separados, 5 % divorciados e 15 % outro tipo de união. Observa-se que a grande parcela de alunos do Ensino Médio de CEJA é casado, o que implica em responsabilidade familiar, quer seja nos afazeres doméstico ou como provedor.

Na ocupação profissional, 5% dos alunos afirmaram que não estão empregados, e 95% afirmaram que sim estão empregados. Atividade ocupacional, 17% dos alunos no comércio, 27% na indústria, 17% na construção civil, 10% no setor de serviços, 6% são autônomos, e 23% em outras atividades ocupacionais. O Município de Nova Mutum tem sua economia alicerçada na agropecuária. A soja é o principal produto da atividade do meio rural. Renda mensal familiar, 25 % com renda familiar de até 1 salário mínimo, 50% de 1 a 2 salários mínimo, 20 % de 2 a 3 salários mínimo, e 5% acima de 3 salários mínimos. Pode-se considerar a renda familiar como um fator de interferência na permanência escolar, sendo uma das causas da evasão escolar, a necessidade do aluno de trabalhar, como forma de complementar a renda da família. Carga horária semanal, 75% responderam que trabalham 44 horas semanais, 10 % 40 horas semanais e 5% 30 horas semanais, 5 % mais de 44 horas semanais, e 5% nenhuma, pois não trabalham.


Trabalho e educação são temas convergentes abrigando vários pontos de intersecção, ainda mais quando estamos nos referindo à EJA: “emprego”, "mercado profissional" e "qualificação" são os tópicos usualmente associados à EJA e presentes em seu currículo. Nesta pesquisa o trabalho é visto como a atividade (ocupação profissional) desenvolvida por um indivíduo em uma empresa ou instituição, onde o seu trabalho (físico o mental) é devidamente remunerado. O trabalho tem grande influência no desempenho educacional dos alunos do EJA.


Observa-se que 85% dos alunos do CEJA Paulo Freire. vêm de trajetórias  interrompidas no Ensino Regular marcadas por reprovações e abandono, e apenas 15% responderam que não. Nesse sentido, um dos desafios da CEJA é atingir um processo de aprendizagem significativa, repensar formas de mobilização dos processos didáticos pedagógicos em sala de aula e fora dela, que possibilitem os alunos ao retomarem o seu percurso educativo, consigam concluir, e integrar na sua área do trabalho, e na sua inserção na sociedade como cidadão.


A reprovação e a repetência explicitadas conduzem inevitavelmente à evasão escolar dos sujeitos já excluídos. Esta exclusão pode ser desdobrada como exclusão na e da escola (Ferraro, 2004).


Neste sentido foi questionada aos alunos, quais as causas da sua reprovação ou abandono do ensino regular, 47% responderam para trabalhar, 5 % consideraram a distância da escola, 5 %, mudança de cidade, 13% casamento, 5 % horário das aulas, e 10 (dez) 25% não atribuíram motivo, uma vez que, nunca reprovaram.


Quanto a desmotivação do estudo, 40% trabalho, 10% migração, 5% horário das aulas, 10 % dificuldade na aprendizagem, 30 % cansaço, 5 % insegurança. Na motivação para estudar, 40% dos alunos declararam ter como objetivo cursar o Ensino Superior3% dos alunos responderam concluir o Ensino Fundamental, 7% dos alunos responderam concluir o Ensino Médio, 23% dos alunos fazer concurso, e 27 % dos alunos ter um melhor emprego. Jovens e adultos que retornam à escola somente o fazem devido ao desejo de melhoria de vida ou por exigências ligadas ao mundo do trabalho

No aspecto da influência do trabalho na evasão escolar no CEJA, 90% dos alunos consideram que o trabalho tem grande influência na desistência dos estudos (evasão escolar), 10%, consideram que não. Neste sentido Gutiérrez, 1998 (p. 26-27), considera que a situação sócio-econômica do estudante condiciona não só sua entrada para a escola como também constitui uma série de restrição durante toda sua trajetória escolar. [...] Em outras palavras, o êxito escolar está condicionado pela capacidade econômica do estudante.

No questionamento das principais causas da evasão escolar dos alunos do CEJA Paulo Freire, 40% a grande maioria, consideram o trabalho, 15% cansaço e desânimo, 5% problemas familiares, 5 % horário, 25 % mudança de cidade, 5% metodologia inadequada, 5 % desvalorização local do estudo. A evasão escolar é uma situação problemática, que se produz por uma série de determinantes. O problema da evasão escolar preocupa a escola e seus representantes, ao perceber alunos com pouca vontade de estudar, ou com importantes atrasos na sua aprendizagem.


Fica evidente a questão do trabalho, como fator preponderante para a evasão escolar no CEJA Paulo Freire. Este resultado corrobora com as pesquisas de Rummert (2007), Koch (1992), que consideram as dificuldades enfrentadas por estudantes para conciliar trabalho e estudo são muitas e representam um dos motivos mais fortes para a evasão escolar: jornada de trabalho extenuante, em alguns casos, superior às oito horas diárias; condições insalubres e penosas que exacerbam o cansaço físico e mental; baixa remuneração; falta de tempo livre para o estudo fora da sala de aula; turno/horário de trabalho incompatível com o horário escolar; assédio moral de empregadores; condições de desemprego ou subemprego; isso para citar apenas alguns problemas.


No caso dos alunos do CEJA Paulo Freire, os resultados mostram que as dificuldades encontradas pelos alunos são diversas, a começar pela conciliação do trabalho com o estudo, na qual a jornada de trabalho exaustiva, muitas vezes maior que 40 horas semanais, provoca cansaço físico e mental, transpondo para a dificuldade para estudar. Em relação ao cansaço e desânimo, como já foi citado anteriormente, esta relacionado ao fato do aluno da CEJA estar inserido em dois mundos ao mesmo tempo, ou seja, o trabalho e o estudo, contribui para o cansaço e desistência dos estudos, e conseqüentemente o aumento da taxa de evasão escolar nesta modalidade de ensino.


No caso do tempo de moradia do estudante no município de Nova Mutum, os dados reforçam a migração como um dos fatores preponderante para a evasão escolar, uma grande parcela dos estudantes 77% tem menos que 15 anos de moradia no município e apenas 23% reside a mais tempo. Cabe ressaltar que o município de Nova Mutum, tem sua economia baseada no agronegócio, na qual a maior parte dos postos de trabalho, são de trabalhos temporários, que relacionam-se ao período de safra e entressafra. Esta característica econômica do município pode levar a população a atração para outras localidades, em busca de outras atividades ocupacionais, melhores emprego, de melhor remuneração salarial, com maior valorização, daquelas presentes em seu município.


Entre os diversos motivos que conduzem um indivíduo a se tornar um migrante na maioria das situações, remete-se a procura de melhores condições de trabalhos e melhor remuneração, fator que na maior parte dos casos encontra-se indisponível ou ausente no local de origem do migrante (Ravenstein, 1980 e Vasconcelos, 2012).


As causas para ocorrência das migrações são inúmeras e as motivações conforme podem ser definidas por motivos financeiros e econômicos, causado principalmente pela busca frenética de melhores condições e qualidade de vida e por trabalho com melhor remuneração (SINGER, 1980).

O estado de Mato Grosso tem a economia baseada na agropecuária, principalmente na produção de soja e na criação de gado relacionam-se com a agricultura. Nesse sentido, a maior parte dos postos de trabalho, são trabalhos temporários relaciona-se ao período de safra e entressafra, o que desenvolve os deslocamentos temporários da mão de obra trabalhadora (MATO GROSSO, 2013).


Quanto as medidas preventivas para a redução da evasão escolar do CEJA Paulo Freire, 10 % alteração no horário das aulas, 7 % dos alunos responderam disponibilidade de transporte, 13 % melhoria na gerência do CEJA, 10 % melhoria na estrutura física, 5 % mais segurança, 17 % motivação da escola e professor, 18% redução da carga horária, e 20% aulas mais dinâmicas


Aulas mais dinâmicas, foi o fator com maior percentagem 20% considerada pelos alunos. Este fator esta relacionado a metodologia de ensino no processo da aprendizagem, nas atividades desenvolvidas em sala de aula, exigindo assim, uma postura diferenciada da escola e dos professores, que devem adaptar o conteúdo ministrado em função das características dos alunos dessa modalidade de ensino. Este fator esta diretamente relacionado a questão da motivação, que aparece, com 17% dos entrevistados. Outro ponto ressaltado pelos estudantes 18% é a alteração da carga horária. Quando consideramos que o EJA, trata de educação de jovens e adultos trabalhadores, com carga horária de trabalho de 40 horas semanais na maior parte dos alunos 70%, temos que considerar como relevante.


Ressalta-se que o horário de saída da escola no período noturno é às 22h45min, considerado cansativo para os alunos que trabalham durante o dia, e que terão que levantar cedo no outro dia para mais uma jornada de trabalho. Os alunos também consideram a necessidade de uma melhor gerência do CEJA, no caso se referindo à gestão escolar, 13% dos entrevistados, o que conduz a equipe gestora e professores uma reflexão sobre o Projeto Político Pedagógico (PPP) do CEJA Paulo Freire. A melhoria na estrutura do espaço escolar, também foi abordada por 10% dos alunos.


Um dos motivos do abandono escolar (evasão) é a dificuldade da escola em compreender as necessidades diferenciadas de cada aluno, além da falta de direcionamento de seus objetivos, de forma a conhecer as representações sociais apresentadas pelos alunos (Arroyo, 2006).


Outros fatores como 5 % segurança e 7% transporte, foram considerados, porém em menor percentagem. A questão da segurança, problema vivido pelos grandes centros populacionais brasileiros, é também uma preocupação dos alunos do CEJA Paulo Freire, principalmente por ser as aulas ofertadas no período noturno. Quanto ao transporte, deve-se considerar que a maioria dos alunos desta instituição, pertencem a classe de baixa renda, por tanto dependem do transporte público local.

 

CONCLUSÃO

 

Diante dos resultados, podemos concluir que uma das causas da evasão escolar no Centro de Estudos de Jovens e Adultos - CEJA Paulo Freire, no município de Nova Mutum, esta centrada principalmente na dificuldade que os alunos encontram em conciliar o trabalho com estudo. Outras causas também foram identificadas, que levam os alunos a desistirem da escola em determinado momento de sua vida, o cansaço e o desânimo. Este cansaço é o reflexo de um dia estafante de trabalho aliado a metodologias nem sempre adequadas ou motivadoras para esta modalidade de ensino, com uma clientela de características peculiares,  que não teve oportunidade de estudar no tempo certo ou que deixou de freqüentar as aulas, sinalizando o afastamento das atividades escolares durante o ano letivo, idade avançada, sucessivo abandonos e reprovação no ensino regular, baixa renda, etc.

Podemos concluir, também que a migração da população para outras localidades, em busca de melhores oportunidades de trabalho, outras atividades ocupacionais, melhores emprego, de melhor remuneração salarial, com maior valorização, daquelas presentes em seu município, proporciona a elevação do índice de evasão escolar,devido a grande rotatividade de alunos no CEJA Paulo Freire. A partir destas conclusões, esperamos contribuir para uma reflexão das autoridades políticas, professores e todos que atuam no meio educacional, em busca de possíveis medidas e ações ao combate à evasão escolar. As escolas professores juntamente com a equipe pedagógica devem elaborar projetos adequado para seus alunos, voltados a essa modalidade de ensino.


Por fim, é necessária a busca de políticas públicas, bem como de intervenção que atuem dentro e forma do ambiente escolar com a finalidade de estimular a permanência dos alunos de EJA, na escola.

 

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