''Acham que sou petista'', afirma diretor do TRE

Por Lázaro Thor Borges/Gazeta Digital 15/10/2018 - 08:47 hs

Foto: Reprodução

"Eu defendo a urna eletrônica e eles acham que eu sou petista". Foi com essa frase que o diretor-geral do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT), Nilson Bezerra, definiu suas sucessivas tentativas de exaltar a confiança que a urna eletrônica oferece ao processo eleitoral brasileiro.  


A reportagem de A Gazeta conversou com Bezerra sobre a propagação de vídeos na internet no último domingo (7), dia do 1º turno da eleição, relatando supostas fraudes nas urnas. Em sua maioria, as gravações eram feitas por eleitores do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) que, na avaliação do diretor-geral do TRE-MT, podem ter cometido um equívoco: digitar o número do candidato a presidente no momento em que deveriam escolher um candidato a governador do Estado.


Alguns desses vídeos que circulam pela internet mostram eleitores reclamando do fato de a urna eletrônica não apresentar a foto de Jair Bolsonaro no momento do voto. Neles, no entanto, é possível perceber que o voto solicitado é para o cargo de governador. Nos Estado em que não havia candidato ao governo do PSL, como foi o caso de Mato Grosso, esses votos acabaram anulados.   


“Se o primeiro voto fosse para presidente, nada disso teria acontecido. Mas o TSE entende que tem que deixar o presidente [por último] para que se obrigue a pessoa a votar para todo mundo. Se o presidente fosse em primeiro, ninguém ia reclamar da urna, mas daí daria um problema para a gente, pois teríamos que anular os outros votos que não foram digitados”, avalia Bezerra.   


Essa tese de “confusão” na hora de votar seria reforçada pela quantidade de votos nulos registrados neste pleito para o cargo de governador. Em Mato Grosso, foram quase 230 mil, o equivalente a pouco mais de 13% do eleitorado. Quatro anos antes, em 2014, esse número foi de 139.231 eleitores (8,25%).   


Vídeos semelhantes circularam por todo o país e os dados o 1º turno da eleição em outros Estado também apontam para um crescimento da quantidade de votos nulos no momento de escolha de um candidato a governador. Em Pernambuco, o percentual saltou de 9,50% nas eleições de 2014 para 22,99% neste ano. Outros estados que tiveram crescimento semelhante foram Paraíba, que passou de 8,25% para 16,31%; e Goiás, onde o número passou de 5,27% para 11,33%.   


Estados brasileiros que tiveram candidatura do PSL ao cargo de governador também apresentaram um crescimento na quantidade de votos nulos, mas em percentuais menores. Os maiores números registrados foram em Sergipe, onde os votos anulados saltaram de 12,65% nas eleições de 2014 para 17,84% neste ano; e Alagoas, onde o percentual passou de 12,38% no pleito passado para 17,39% no deste ano. Nos dois estados, os candidatos do PSL foram derrotados nas urnas.   


Apesar da aparente correlação entre as queixas de suposta fraude nas urnas e o crescimento da quantidade de votos nulos, Nilson Bezerra disse que ainda não pode fazer afirmações nesse sentido. Segundo o diretor-geral, esses dados só serão analisados a fundo após a realização do 2º turno do pleito.   


Acessibilidade   


Para Nilson Bezerra, a onda de críticas a urna eletrônica é uma tentativa de restringir o acesso ao processo democrático dos eleitores mais pobre. O diretor do TREMT sustenta que, desde sua implantação, em 1996, nunca foi comprovada qualquer tipo de fraude ao equipamento. Confiante na eficiência da urna eletrônica, ele desafia Jair Bolsonaro a pedir auditoria também caso de ser eleito.  


“Nós, da Justiça Eleitoral, esperamos e torcemos que, caso o Bolsonaro ganhe a eleição, ele também peça a auditoria da urna, porque se ele ganhar e ficar só falando mal na internet e não pedir a auditoria, não tem coerência. Quando se perde, é fácil pedir auditoria, quero ver quando se ganha”, provoca.   

Pelos cálculos de Bezerra, antes da urna eletrônica ser implantada no Brasil cerca de 40% dos votos eram anulados em Mato Grosso. O percentual correspondia a eleitores analfabeto que não conseguiam reconhecer o nome de seu candidato ou mesmo escrever na cédula de papel. Com a adoção do sistema eletrônico, segundo ele, além da redução das fraudes, o eleitor analfabeto passou conseguir reconhecer seu candidato pela foto e pelos números. O resultado é que os votos nulos, neste ano, por exemplo, foram reduzidos a 14%.    


“Esta diferença só aqui em Mato Grosso dá 500 mil pessoas. A maioria delas são pobres. Se 500 mil pobres não votassem, Bolsonaro ganharia no 1º turno. Não é que a urna rouba contra ele, é que a urna permite o aproveitamento de votos das classes menos favorecidas, que é um eleitor que, em sua maioria, não vota nele”, afirma Bezerra.   


Testes de segurança   


O diretor-geral do TREMT ressalta que em todo ano de eleição, 150 dias antes do pleito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza o teste público de segurança nas urnas. Nele, hackers são convidados a tentar invadir os equipamentos. Até hoje, nenhum partido ou candidato participou presencialmente do teste.   


“É muito fácil criticar o sistema eleitoral, quero ver ajudar, auxiliar, fiscalizar. Falam da urna, mas eu não vejo ninguém nas seções. Os partidos podem ir, fiscalizar, fazer o que é dever deles, mas ninguém faz”.   


Chefe do setor de Tecnologia da Informação do TRE-MT, Luis Cézar Dorienzo afirma que um estudo realizado pelas Universidades de Sidney e Harward demonstrou que o Brasil tem uma das eleições mais segura do mundo, no mesmo nível dos Estados Unidos.   


“Este estudo demonstrou que nós temos alta confiabilidade na nossa eleição, os únicos fatores que tiramos nota baixa foi cobertura da mídia e financiamento de campanha, e os dois são fatores externos, que não dependem tanto do Tribunal Eleitoral”, afirma.   


Neste ano, as eleições em Mato Grosso também receberam auditores da Organização dos Estados Americanos (OEA), que vieram a convite do próprio TSE ao Brasil. Segundo Bezerra, o Tribunal sugeriu que a organização viesse auditar as eleições por conta das suspeitas levantas pelo candidato do PSL. Em relatório publicado logo depois do pleito, a OEA disse não ter encontrado falhas.